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1 de julho de 2012

Shrek roubou nossa alma


Atualizações de status saltam na minha tela com uma notícia incrível: era do gelo 4 saiu e é imperdível. Ler essa frase faz meu sangue correr mais rápido, aumentando minha temperatura corporal. Sinto-me moralmente ofendido.
Sim, eu odeio animações 3d
"Ah, mas são tão bonitinhos e divertidos, por que esse ódio todo?". Vou te explicar, os filmes 3d estão destruindo o cinema e nossa cultura.

Minha primeira experiência com o gênero foi assistindo a um seriado em 3d chamado reboot. Eu, pobre criança inocente, me deleitava com a nova mídia. Na época, o 3d ainda engatinhava, não tínhamos a avalanche de animações que hoje invadem as férias da criançada. Eu achava surpreendente, mal sabia eu que assistia à semente do apocalipse cultural germinando em minha frente.

Na época, 3d era coisa de criança. Devido às limitações técnicas, as formas eram simples e as texturas eram claramente falsas. Tudo tinha um aspecto infantil, era um mundo de brinquedo. O formato não diferia muito das animações convencionais.

O problema todo começou com o lançamento de Shrek. Agora não tínhamos mais só crianças nos cinemas, começamos a ter alguns adultos (jovens adultos sem filhos). Os autores começaram a colocar piadas de duplo sentido, referências culturais e outros conteúdos que as crianças não entendiam. Pouca gente estava se dando conta das consequências terríveis desse comportamento absurdo.

Agora se tornou corriqueiro, cinemas lotados de adultos, casais, velhos, todos assistindo a uma abelha falante com a voz de um comediante famoso. Onde está o comediante? por que ele não aparece? por que vemos o mundo através duma mentira?

O filme de animação é um porto seguro para os jovens casais. Claro que o Ricardinho prefere levar a namorada para ver "Era do gelo 4" do que levá-la para ver o último drama espanhol. O drama pode levar a discussões indesejadas, a reflexões sobre a vida, sobre seu relacionamento. O drama pode levar à verdade. A animação não, as pessoas entram no cinema, o cérebro fica na bilheteria.

Claro que esses filmes tratam de temas da vida real, eles tem que tratar. Mas é tudo escondido atrás de máscaras, atrás de trinta centímetros de tinta e efeitos de iluminação. É muito fácil ignorar a mensagem, é tudo armado para que tu ignores a mensagem. Idealmente não há mensagem. A abelha come mel e dá uma risada, tu ris junto e a Terra gira. A namorada não briga, o namorado não pensa. Saem juntos de mãos dadas como entraram. Fugiram da realidade, eliminaram a realidade.

Como se não bastasse o efeito alienador de tais filmes, ao qual os filmes de Hollywood estão longe de estarem imunes. Esse tipo de filme está acabando com atores de verdade, com vidas de verdade. Em pouco tempo, não iremos mais querer ir ao cinema para ver pessoas de verdades, rostos como os nossos. Claro que não, quereremos ver abelhas comendo mel e roedores caindo de precipícios. Que chata essa reflexão sobre o efeito da morte de um familiar na vida de um cidadão de classe média! quero ver um urso de saia dançando balé.

O vida não refletida não vale a pena ser vivida, o homem que não reflete é facilmente manipulado. O político que rouba teu dinheiro é de verdade, com voz de humana e intenções obtusas. Não é uma abelha de gravata. Nas próximas eleições não votes no urso bailarino.

É por isso que os filmes 3d me corroem a alma. Eles estão criando uma sociedade de alienados que preferem o urso falante que o áspero calvário da reflexão.

16 de setembro de 2011

O que não pode ser dito

Le cinéma, comme la peinture, montre l'invisible.
[O cinema, como a pintura, mostra o invisível]

Jean-Luc Godard
1. Comunicação
Nos comunicamos para transmitir ideias. Quando usamos a linguagem para a comunicação, organizamos conceitos em uma certa estrutura, que, acreditamos, vai transmitir essas ideias com o mínimo de ruído. Generalizamos sentimentos em conceitos que devem ser entendidos por ambas as partes. Quando falamos -- ou escrevemos --, temos que fazer um esforço mental para organizar nossas ideias, para transformar nossos fluxos de consciência em frases e parágrafos. Toda essa lapidação intelectual acaba por "deformar" as ideias originais.

Na comunicação, as palavras descrevem apenas generalizações e conceitos que já existem. Certas palavras descrevem emoções, ódio, amor, desprezo. Porém, tais palavras transmitem apenas tangencialmente tais emoções, representando generalizações e apagando nuances. O ódio do menino que foi castigado pelos pais, o ódio da vítima de estupro, o ódio do marido traído; existe todo um gradiente de "ódios" que podem ser sentidos.

Tentamos da melhor forma possível traduzir os sentimentos, combinando conceitos. É impossível, porém, transmitir com cem por cento de acuidade um certo estado mental. "Ninguém me entende" diz o adolescente revoltado; de fato.

2. O que não pode ser dito
As palavras, porém, não são a única maneira de transmitir ideias; gestos, ruídos, imagens podem ser usados para transmiti-las. Porém, quanto mais nos afastamos das palavras, quanto mais abstrato é o meio de comunicação, menos acuidade temos na transmissão.

O papel da arte é comunicar aquilo que não pode ser dito, o invisível. Nem tudo é arte, a diferença entre uma obra de arte e algo mundano é o quanto do "invisível" ele mostra.

3. Criação da arte
Para entender o que é arte é preciso entender o processo de criação de arte. Quando queremos dizer algo, não temos todas as frases que vamos dizer prontas na cabeça. Temos apenas uma ideia abstrata do que queremos dizer e conforme falamos organizamos e ligamos conceitos. Da mesma forma, a arte é uma modo de comunicação. Ao começar a criar, o artista não sabe exatamente o resultado final. Não sabe que cor vai ter cada centímetro de sua obra. Ele apenas cria e tenta passar aquilo da melhor forma possível para sua obra.

Arte é expressão, não o expressado. A arte não está na obra, tão pouco no artista. A arte está no meio. A arte é um processo, uma tentativa.

3 de setembro de 2011

Sobre portas de garagem arruinadas


1.  Piche
Alguns indivíduos, seus amigos, estavam "progredindo" na vida. Arrumando emprego, se casando. Ele ainda escutava Legião Urbana (escondido). Seus amigos odiavam os pichadores, que arruinaram a porta de suas garagens. Ele via a pichação como expressão de individualidade, representação da luta de classes e da voz que não é ouvida pela mídia de massa. Eles reclamavam do atendimento no KFC, ele reciclava caixas de cereal e anotava seus sonhos num "caderno de sonhos".

Ele tomou um tiro de uma bala perdida. Não teve filhos.

2. Ilusão
A sociedade sempre foi a ferramenta humana de ocultação da realidade. Quanto mais complexa a malha social, mais distantes estamos da natureza das coisas. O muro todo branco, a possível promoção no emprego, as plaquinhas na frente das árvores dizendo seus nomes científicos; essas coisas são um grande muro que bloqueia nossa visão.

Existem coisas, porém, que causam pequenas rachaduras nesse muro, coisas e eventos que nos fazem lembrar da nossa existência e insignificância. O sistema digestório e excretório humano, pichações nos muros, depravação. Existe um certo esforço natural da sociedade por sua eliminação ou atenuação. Moralidade, banheiros públicos, espiritismo, casamento.

Podemos passar a vida toda nos iludindo, mas basta que uma ilusão se quebre para que todas as outras comecem a desabar, como um castelo de cartas.

3. Ciclo
Quando me apaixonei, não deixei que percebesse.
Discretamente senti seu perfume, olhando-a de soslaio. Sonhei com e acordei pensando nas coisas que me dissera.
Cumprimentei normalmente, com o mesmo sorriso, porém outro olhar.

Quando passou, não deixei que percebesse.
Discretamente ignorava suas palavras, olhando uma mancha na parede. Não sonhei mais.
Beijei normalmente, com o mesmo sorriso, mas nunca mais com o mesmo olhar.

4. Melhor resposta - Escolhida pelo autor da pergunta
eu acho uma falta de educação na sociedade em pleno seculo xxi existem pixadores ridiculos que saem pixando qualquer coisa e ñ ligam se for uma casa um predio muro qualquer coisa
eu acho isso uma verdadeira calamidade publica a cida fica orrivel a onde eu vo tem que per um maldito pinxe que deixa a cidade orrivel
e o que o governo faz absolitamente nada o governo devreria se preuculpa com a segurança saude e educação que é mais importante para nós brasileiros que precisanmos bastante

fabio, yahoo respostas

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