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10 de fevereiro de 2015

24 dias de meditação


Você já imaginou como seria ver a sua vida por uma tela? Imagine ver cada instante do seu dia de hoje, minuto a minuto. Seria uma experiência excruciante, principalmente para os mais ansiosos. Há um par de anos atrás, eu coloquei minha webcam para tirar uma foto por minuto. Ver o seu rosto olhando debilmente para a tela de um computador é uma visão não muito agradável. Mas a cada minuto eu estava totalmente inconsciente da minha situação, totalmente concentrado em seja lá o que eu estivesse vendo. Em qualquer outro lugar, menos ali. Observar você mesmo em terceira pessoa tem um poder transformativo.

Vá para o centro da cidade e observe o rosto das pessoas. A maioria está presente só em corpo. Seus olhos mirados para frente mas suas mentes já onde vão chegar, ou talvez para aonde vão várias horas depois. Pouco pensamento vai em cada ação a se tomar, o que fazer a seguir. Grande parte do nosso dia se passa dessa maneira, fazemos as coisas no automático.

Passamos um terço da nossa vida dormindo, o que é uma necessidade do corpo. Mas e nos outros dois terços? estamos realmente acordados? quantas vezes você já deixou as chaves de casa em um lugar aleatório e depois não lembrava onde as tinha posto? é isso que acontece quando se vive dormindo.

Há 24 dias eu tenho meditado uma vez por dia. Para quem nunca tentou, ficar sentado, sem pensar em nada, dez ou vinte minutos é muito mais difícil do que parece. Nosso cérebro tenta ao máximo fazer tudo por hábito. Se você dirige, pense na primeira vez que dirigiu. Cada passo era feito conscientemente, exigindo alta concentração para fazer as coisas mais simples como mudar de marcha ou checar o retrovisor. Aos poucos essas pequenas ações foram sendo incorporadas à sua "caixa de ferramentas" e você começava a fazê-las sem nem mesmo pensar. Hábitos se incorporam as atividades automáticas do dia-a-dia. Chegar em casa e ligar a televisão por exemplo. Ou abrir o e-mail quando outras atividades exigem sua atenção.

Com o tempo, os hábitos se tornam parte de nós. Aos poucos é difícil nos dissociarmos do que fazemos todos os dias. O homem que acorda cedo todo dia e lê o jornal acredita que ler o jornal faz parte de quem ele é. Mas o que aconteceria se amanhã o homem acordasse e fosse correr no parque? ele obviamente não viraria outra pessoa, ainda seria o mesmo homem. Da mesma forma, criamos o hábito de nos perdermos em pensamento.

Faça o seguinte: da próxima vez que estiver se deslocando para algum lugar comece a observar as coisas que você pensa. Observe o quão repetitivo e exaustivo é o pensamento. Talvez você pense em algo que tem que fazer quando chegar em casa e depois de algo errado que fez no trabalho ontem. Depois você vai pensar novamente nessa coisa que tem que fazer assim que chegar em casa, então vai lembrar de algo de errado que fez semana passada. Daí vai pensar em como está se sentindo desconfortável e como vai ser bom chegar onde quer chegar. Logo vai começar a pensar de novo que não pode esquecer de fazer aquela coisa no momento que chegar em casa. E vai lembrar de algo errado que fez em 2003.

Da mesma forma que seria excruciante ver o seu dia em uma tela, seria extremamente monótono ouvir tudo que você pensa lido em voz alta. A pura repetição já o faria ficar entediado, mas mais que isso, o discurso, além de não interessante, é ruim. Quantos dos seus pensamentos lhe fazem sentir mal? mas esse que está lhe chamando de burro porque esqueceu da carteira em casa, esse é você não é? e não há como fugir de si mesmo.

Esse não é você.

Mas esse discurso interno é feito a tanto tempo que se torna um hábito. Tanto que é difícil de imaginar que essa voz que está na sua cabeça não é você. Que é um hábito. E que pode ser reduzida. Isso é só ruído. É possível controlar mais o seu próprio pensamento.

Sentar e meditar é um hábito. Eu comecei com dez minutos por dia e passei para quinze. Nesse tempo eu tento focar no momento, na respiração. Eu não luto com os pensamentos, eu os deixo sair como entraram. Eu não me identifico com os pensamentos. Eu não me chamo de distraído quando perco a atenção. O importante é só sentar e meditar.

Ainda é cedo para dizer, mas eu estou mais feliz. Mas você não precisa acreditar em mim. Você não precisa nem mesmo acreditar que funciona. Basta sentar e não pensar em nada. Meditação é um treino para todo o tempo em que você não está meditando. 

10 de janeiro de 2013

O inferno são os outros


Todo mundo filosofa. Seja na mesa do bar, ou no banco do ônibus. Filosofia pode ser feita em grupos de dez, ou sozinho no elevador. Não precisa ter diploma, nem certificado. A maioria das pessoas filosofa e nem percebe. Também pode ser feito em qualquer idade. Eu comecei a filosofar quando tinha cinco anos. A primeira questão que ocupava minha mente ainda não totalmente desenvolvida era:
Por que eu sou eu e não outro? como seria ser outro?
A pouco tempo eu aprendi que as crianças bem novas não tem a noção de que seu cérebro é separado dos outros. A criança não entende que o que ela sabe nem todos sabem. Vi um experimento no qual uma menina é deixada pela mãe sozinha em uma sala. Nesse meio tempo ela esconde uma boneca em uma gaveta. Quando sua mãe volta, a menina fica surpresa de descobrir que a mãe não sabe onde está a boneca. Como ela não sabe onde está a boneca? está dentro da gaveta. Para a menina, tudo que ela sabe, a mãe também sabe.

Lá pelos quatro anos de idade, finalmente começamos a entender que existem outros. Começamos a criar a "teoria da mente". Modelamos o comportamento de outras pessoas tendo em vista que não têm os mesmos gostos e conhecimentos que os nossos.

Porém ainda fica a curiosidade de saber como é ser outra pessoa. Talvez essa curiosidade ajude na hora de modelar o comportamento dos outros. Por isso biografias são tão populares. Queríamos estar na pele de outrem, saber como é sentir outras experiências, outra realidade.

Reality shows são populares também por esse motivo. Somos voyeurs naturais, queremos saber os verdadeiros motivos, a verdadeira personalidade de todos.

E enquanto criança, sempre me imaginava como outro. Imaginava acordar em outra cama, estar em outro uniforme. O que influenciou profundamente a maneira como eu vejo o mundo. Tenho uma dificuldade muito grande de apontar culpados, de condenar.

"Quero ver se fosse com a tua filha". Para mim as respostas não são simples, não acredito no bem e no mal. No Certo e no Errado (com letras maiúsculas). Sempre existe uma situação agravante, um desbalanceamento químico, uma coincidência indesejada.

E isso se estende para nós mesmos: olhamos para o passado e nos julgamos. Somos os piores juízes e executores da nossa própria sorte. Mesmo que tenhamos mais conhecimento do que qualquer um para fazer tal julgamento, somos duríssimos na pena.

Algo muito mais válido que Moralidade, que é fossilizada e morta, é compaixão. Eu prefiro mil vezes alguém que se põe no lugar do outro, do que alguém com aquele forte código de honra cravado em pedra. E teríamos uma sociedade muito mais feliz se antes de condenarmos, tentarmos entender o nosso amigo ser humano. E mais que tudo: tentarmos entendermos nós mesmos. Conhece-te a ti mesmo.

links interessantes:

23 de agosto de 2012

Não suporto mais ele! Dicas para mudar o seu namorado.


Só há amor quando não existe nenhuma autoridade.
Raul Seixas
Esse blog tem "relacionamentos" no subtítulo, mas exceto raras exceções, não falei muito aqui sobre as dificuldade dos relacionamentos.

Relacionamentos não são fáceis, isso a amiga leitora já sabe. Em 2011 tivemos, no Brasil, recorde de número de divórcios. Todos já viram a transformação de jovens casais apaixonados em pessoas que já não podem nem suportar a presença um do outro. Será que todo relacionamento tende ao fim ou ao casal apenas se suportando?

Quando um relacionamento começa, não percebemos os defeitos da cara metade, ou fazemos vista grossa ou os defeitos não nos incomodam. Quanto mais íntimos ficamos, mais esperamos que a parceira aja de uma certa maneira. Alguém cobra algum tipo de comportamento (por exemplo, não deixar papeis espalhado na mesa) e então tu também começas a cobrar certas coisas (baixar a tampa da da privada). A repetição do mesmo comportamento -- na nossa cabeça a falha em mudar -- nos faz querer reclamar, corrigir, o que por sua vez leva o parceiro a se irritar pela situação.

O casal vira uma pequena sociedade, onde existe uma batalha por um conformismo não ditado por ninguém. Essa batalha nos leva a um mal-estar, trazido pelo desconforto de ter o seu comportamento (a coisa que te faz quem tu és) julgado como errado inúmeras vezes. Todo esse desconforto e brigas começa a ser tratado como uma crise na relação. O casal começa a buscar soluções, mas usando as mesmas técnicas utilizadas com relações de trabalho, ou de amigos. Começam a procurar quem é o algoz e quem é a vítima. Essa culpabilização nos faz, mesmo se acreditarmos que realmente temos coisas que precisam ser mudadas, ter uma resistência em mudar. Devido a busca irrelevante pelo "culpado", ou "justiça", ninguém muda.

Só podemos mudar a nós mesmos.
Infelizmente, não controlamos as outras pessoas. Mas controlamos a nós mesmos. Tente avaliar as críticas do parceiro, tu realmente está errado? não interessa o que ela fez que te levou a tomar as atitudes que tomaste, ou tu agiste certo ou errado. Além disso, antes de fazer qualquer crítica a tua namorada, pensa se tu faria o mesmo por ela (com algumas exceções lol); se a resposta é não, então talvez a crítica não seja construtiva.

Tenta mudar. Com certeza mudanças positivas no relacionamento vão resultar da tua mudança de comportamento, só o fato de não te fazer de vítima, já vai aliviar a situação. Isso vale para tudo na vida, se tu agires como uma vítima, vais ser sempre a vitima.

22 de agosto de 2012

A voz cruel que te impede de realizar os teus sonhos


Existe uma voz, que está dentro de todos nós. Ela está lá para desmerecer nossos pequenos sucessos, e para aumentar nossas pequenas derrotas. Uma voz que ninguém controla, que odeia mudanças, que adora planos.

Ela te manipula. No fim de semana ela te convence a começar a fazer exercícios só na segunda. Na academia ela te convence de que tu és fraco, ou gordo demais, ou não és bom nos esportes. No dia seguinte ela está lá para te dizer que tu merece um dia de descanso. No outro para dizer que tua perna ainda dói, que o melhor é esperar mais um dia. 

Ela critica tua obra, repete a opinião negativa dos outros, ignora a positiva. Ela te põe medo, te faz desistir. Ela fica do teu lado, enquanto tu crias, criticando cada detalha da tua criação. Te mandando parar, te criando distrações.

Ela te faz esperar o momento certo, a ferramenta certa, a pessoa certa. Ela te faz esperar as oportunidades ao invés de criá-las. Cada pequeno avanço no teu esforço, ela vai achar pouco, ela vai te convencer da impossibilidade dos teus sonhos.

Essa voz que Steven Pressfield chama de Resistência, os cristãos chamam de Lúcifer e eu chamo de Racionalização.

Não escutá-la é difícil. Ela é mais persistente que Sísifo, não se cala nunca, quanto mais difícil a tarefa, mais forte ela fica. Ela ganha qualquer argumento. Nem sempre fala de dentro do teu inconsciente, as vezes toma forma de crítico, as vezes de familiares e amigos: descansa um pouco, tu tens que sair mais, tu tens que vir beber conosco.

Não sei ao certo das origens dessa voz, mas ela é cruel, até mesmo as pessoas mais simpáticas do mundo dirão coisas horríveis a si mesmos: "você é um incompetente", "não fizeste nada de útil hoje", "você não serve para nada". Essas pessoas nunca diriam isso -- nem pensariam isso -- para ninguém, mas a voz é sempre cruel e mesquinha.

Se tu tens algo que queres muito fazer, e que pensas que é impossível, só há uma maneira: vencer essa maligna voz. E para vencê-la, joga o jogo dela: a persistência. Ignore-a. Comemora cada sucesso por menor que seja. Toma consciência que essa voz não é tu. Essa voz é a da derrota, da situação.
Perna doendo? dói pouco; vou correr.
Só cinco repetições? ótimo, amanhã faço seis.
Este quadro está feio? está muito melhor que os meus primeiros, o próximo vai ser ainda melhor.
Esse artigo está mal escrito? amanhã o re-escrevo.
Esforço é como juros, se compõe. Com o tempo a vozinha vai perder a força, até se perder dentre teus muito sucessos. O importante é não desistir, é depositar todo mês, comparecer.

12 de agosto de 2012

O pássaro e o executivo



Em umas longínquas montanhas na Índia vivia um mestre budista em um grande templo. O acesso por qualquer meio de transporte humano era quase impossível. A única forma de chegar nesse templo era através de uma densa selva e uma dura escalada.

Luís Roberto era um jovem empresário, com seus apenas trinta e dois anos já era milionário e estava a frente de um grupo com mais de seis mil funcionários. Tão jovem e com tanto sucesso, não havia muito que Luís não conseguia por pura determinação. Porém, não era feliz.

Já tinha tido muito amores que não deram certo, já tinha tentado quase todas as religiões. Fora do campo profissional, considerava sua vida uma fracasso. Parecia sempre estar buscando alguma coisa, que não sabia o que era. Além de todo o sofrimento emocional, sua saúde já estava em risco devido a anos de negligência de sua parte. A vida corrida de um empresário não deixava tempo para dormir e se alimentar direito.

Foi então que um jovem, vestido com uma bata budista e chinelos, entregou a Luís Roberto um livro. Esse livro, de capa dura, com páginas amarelas e roídas, castigado pelo tempo e por traças, descrevia no primeiro capítulo tudo que o jovem empresário sofria: as insônias frequentes, o medo de se abrir com outras pessoas, a busca pelo espiritual. Aquele livro parecia ter sido escrito para ele.

O segunda capítulo do livro usava jargões budistas que Luís não entendia para explicar a solução de todos aqueles problemas. Luís passou noites e noites acordado tentando entender o capítulo dois. Procurou cada um dos termos na Internet atrás de alguma explicação: não encontrou nada.

Foi atrás de um especialista: foi em vários templos budistas espalhados pelo Brasil, ouviu falar muito sobre o budismo e seus princípios, mas nada sobre o capítulo segundo daquele livro misterioso, ninguém, nem mesmo os mestre budistas, entendiam aqueles termos ou os argumentos. Luís já estava quase desistindo quando sua esperança foi reascendida: um jovem discípulo de um templo em São Paulo lhe disse que aqueles termos pertenciam a uma corrente já quase esquecida do budismo, cujos últimos discípulos se encontravam em um templo de difícil acesso na Índia.

Luís então tomou uma decisão: precisava entender aquilo, com a mesma determinação que usou para chegar ao primeiro milhão, chegaria também à felicidade. Sob o risco de perder todo o sucesso material que tinha alcançado até ali, partiu no dia seguinte para as ditas montanhas: descobriria a solução para suas angústias ou morreria tentando. Encontrou, em nova Déli, dois guias que conheciam a área em torno do templo. Foi avisado por todos que muitos morreram tentando lá chegar, que o caminho era cheio de perigos. O jovem milionário não chegara tão longe para desistir.

Depois de seis dias de caminhada pela selva, finalmente chegaram ao pé da montanha, a partir dali seriam dois dias de escalada (havia um pequeno vale onde poderiam acampar mais ou menos a três quartos do caminho). A escalada foi dura, especialmente para Luís Roberto, que não era um grande esportista. No caminho para cima, os viajantes viam cordas rompidas e marcas de unhas que indicavam os fracassos passados, cada uma dessas evidências de perigo deixavam Luís ainda mais determinado.

Finalmente chegou no templo, não acreditava na beleza daquela construção intocada pelos séculos. Tinha um estilo que nunca tinha visto, mas que lembrava os templos zen japoneses. A cada três metros nas paredes havia uma figura monstruosa revestida a ouro. As paredes, sem nenhum defeito, eram pintadas com preto e dourado. O jardim era incrível, cada milímetro parecia ter sido planejado. Como tinha sido construído era um mistério: quem teria levado todo aquele ouro e tijolos? Foi recebido por dois jovens discípulos que vestiam roupas idênticas às do rapaz que lhe entregou o fatídico livro: Luís sentia a mesma excitação que sentiu ao vender a sua primeira empresa. 

Foi levado até o mestre.

Subindo uma escada que não parecia ter fim, dentro de uma pequena construção, atrás de duas estátuas aterrorizantes de leões, estava o mestre. Luís nunca tinha visto alguém tão velho, era difícil determinar a sua idade, devido a penumbra e o fato que o idoso raramente se movia. Mas sua voz entregava o castigo dos anos, disse:

- Eu sei porque tu estás aqui, todos vêm pelo mesmo motivo -- demorou cerca de trinta segundos para terminar essa frase, aparentemente já não falava há dias.

- Então -- respondeu rapidamente o jovem empresário -- me explique, mestre, o capítulo dois.

Até que o mestre respondesse, passaram-se três minutos. Esse tempo pareceu dois anos para Luís, toda aquela espera e dificuldade, que somavam-se aos anos de angústias pessoais, faziam sua mente correr a dez mil quilômetros por hora. Tudo parecia se misturar em seu cérebro, seu coração batia acelerado. Toda aquela adrenalina lhe deixava tonto. Seu coração quase parou quando o mestre começou novamente a falar:

- O homem é o único ser dessa terra que tem a capacidade de alcançar a iluminação. Mas nem todo homem nasce igual. Tu estás acostumado a ter tudo que desejas, mas não te satisfazes. O motivo é que desejas a coisa errada. Não é na riqueza e no poder, nem no amor de mulheres, nem na admiração e inveja de homens, que está a tua satisfação: ela só vai ser alcançada no momento em que descobrires o Sentido da Vida.

- O Sentido da Vida? -- respondeu, incrédulo -- então o mestre sabe o Sentido da Vida?

- Faze o seguinte: vai e encontra a ave azul de patas roxas que fala a língua dos homens, entenderás então o Sentido da Vida.

- Como assim? uma ave azul de patas roxas? o que isso tem a ver com o sentido da vida? é um papagaio? eu não entendo, por favor me explique!

O mestre não disse mas nenhuma palavra. Luís ficou doze horas tentando fazer o mestre explicar melhor o que aquilo significava. Mas o mestre permanecia imóvel, o único movimento que fazia era piscar, apenas uma vez a cada vinte minutos.


Luís saiu de lá desconsolado. Como uma pássaro iria fazê-lo descobrir o Sentido da Vida? Talvez tantos anos em um templo longínquo teriam levado aquele velho à loucura. No entanto Luís Roberto não chegou tão longe para nada, ele não era do tipo que desistia na primeira adversidade. Iria encontrar aquele pássaro ou morrer tentando.

Passou os próximos cinco anos procurando a bendita ave, andou pelos quatro cantos do mundo. Uma pista falsa levava a o outra pista falsa, que levava a um beco sem saída. Buscava cegamente, sem pensar em nada além de seu objetivo. Não perdia um só minuto e não se dava luxo de indulgências. Sua vida era só procurar, procurar, procurar. E enquanto buscava, suas empresas, sem seu comando, foram falindo, uma a uma, até que nada restou de sua fortuna, legado e fama.

Derrotado, Luís Roberto voltou ao templo. Iria implorar ao mestre pela resposta. Se não a conseguisse, se jogaria do alto da montanha, nada mais importava para ele, todos os seus bens e conquistas tinha desaparecido. Enquanto escalava a montanha, desta vez sem a ajude de guias, se sentia estranhamento calmo. Teria se resignado a seu destino? talvez os fracassados sejam livres, livres de responsabilidades, de expectativas. Ainda assim algo lhe roía por dentro: não achara o pássaro, nem o Sentido da vida.

Ao chegar ao topo do templo, não pode nem falar antes de ser interrompido pelo mestre:

- Então jovem que tem tudo que deseja, encontraste o pássaro?

- Não, usei todos os recursos e forças que tinha, mas não encontrei -- dizendo isso, Luís se ajoelhou, e continuou -- por favor mestre, preciso saber, perdi cinco anos da minha vida, só procurei, procurei e procurei. Mas não achei nada.

- Passaste anos procurando o pássaro de penas azuis e patas roxas, se tivesses o encontrado, terias descoberto o sentido da vida. Porém o pássaro não existe.

Nesse momento, Luís Roberto descobriu toda a verdade: o mestre era um pau no cu.

13 de abril de 2012

O monge que roubou minha carteira

1. O Mundo
Criei uma analogia para explicar minha visão de mundo: o mundo é como um grande código de barras e nós, leitores de código. Quando passamos o olho, vemos os numerosinhos relativos ao código. Talvez o código de barras seja multicolorido, ou cheio de curvas. Mas nós fomos desenhados para ler somente os tais dos numerosinhos. Ou seja, somos limitados. Não existe nenhum motivo para não o sermos. Mas o código está lá. Não necessariamente físico, ou digital. Mas lógico. Resumindo, sou cético.

2. O Ateu
Amo o amor orgânico.
Choro a morte definitiva,
velo a alma inexistente.

Amo, choro e velo mais que tu.
E rio.

3. Paulo Coelho
Essa manhã, indo para o trabalho, vi um mendigo que ria com poucos dentes. Sentei ao seu lado e perguntei-lhe o que era felicidade. Ele me disse que felicidade era ter um grande bauru para jantar. Andei alguns metros e vi um empresário, perguntei-lhe o que era felicidade. Ele me disse que felicidade era autonomia, realização e propósito no ambiente de trabalho. Andei mais alguns metros e encontrei um atleta, felicidade, me disse, era vencer obstáculos, ultrapassar limites, atingir a perfeição do físico e do mental. Andando mais um pouco encontrei um monge, ele me disse que a felicidade não existia, que a vida era formada de sofrimento, e que a felicidade, como era vista no ocidente, era só mais uma transfiguração da dor. Que o que se deveria procurar na vida era libertação de toda forma de apego. Andei mais alguns metros e vi uma mãe que encostava a ponta de seu nariz na de seu filho. Ambos riam, e eu fiquei feliz.

9 de outubro de 2011

A origem do sofrimento

0. As quatro nobres verdades
Buda, como primeiro ensinamento à seus discípulos, vislumbrou as quatro nobres verdades. Que são, em resumo:
  1. A vida é sofrimento
  2. Todo sofrimento vem do apego
  3. Há uma forma de se livrar do apego
  4. Esse caminho é o nobre caminho óctuplo
Vamos ignorar a quarta, pois é puramente religiosa. Quero que vocês me acompanhem na análise das três primeiras proposições.

1. A vida é sofrimento
Consegues lembrar-te de um só dia em que não sofreste? sofrimento é um dos aspectos que definem a nossa existência. Nossa vida é um grande fluxo de sofrimento pontuado por curtos períodos de felicidade, que são tão momentâneos que deixam dúvida quanto a sua existência.

De um ponto de vista evolutivo, faz sentido que haja mais sofrimento que felicidade. Se a felicidade fosse obtida facilmente e de muitas formas diferentes, os indivíduos teriam pouco incentivo em buscar uma melhora de suas condições. Porém se não existisse nenhuma felicidade, os seres não teriam também nenhum incentivo para viver. Uma vida cheia de sofrimento da qual, com algum esforço, se possa obter essas pequenas pepitas efêmeras de felicidade é prolífera em qualidades que garantem a sobrevivência da espécie.

Milhões de anos de seleção natural geraram o ser humano, a melhor espécie em termos de sofrimento e, não coincidentemente, a campeã na batalha da seleção natural. Somos tão bons em sofrer que sofremos tanto fisicamente, quanto mentalmente. Vê só: somos tão hábeis em sofrer que criamos uma nova categoria de sofrimento.

Todas as grandes conquistas da humanidade podem ser explicadas em termos de tentativas de escapar do sofrimento. O sofrimento de não saber das coisas criou a religião e a ciência. O medo da morte criou a religião e a medicina. Medo também é sofrimento: é sofrimento da perda antecipada.

2. Todo sofrimento vem do apego
A verdade primeira de buda exclui totalmente a felicidade como algo a ser buscado (valor tão impregnado na cultura ocidental). Para ele, a felicidade é a exceção da regra, algo a ser temido. Tudo que a felicidade faz é gerar mais sofrimento. Quando encontramos algo que nos traz felicidade, junto dela vem o medo de perdê-la.

A felicidade é impossível de ser alcançada, seus efeitos colaterais destroem totalmente o seu propósito. É daí que ele obtém a origem do sofrimento: o apego. O desejo incontrolável de manter tudo como está. O medo da perda. A dor física é apego ao corpo, a dor da perda do ente querido vem do apego a esse.

Para Buda, o real alvo a ser buscado é a iluminação e não a felicidade.

3. Existe uma maneira de acabar com o sofrimento
É aqui que começamos a entrar no terreno arenoso na qual a fé se prolifera. O sofrimento, posto que é aspecto tão definidor dos seres vivos, deve ser, segundo Buda, totalmente eliminado. Como uma erva daninha, para eliminar a consequência (o sofrimento) destruímos a raiz (a origem do sofrimento: o apego).

Porém, as coisas não são tão simples quanto parecem nas simples frases enigmáticas do Iluminado (que não foram aqui reproduzidas com exatidão). Eliminar o apego para acabar com o sofrimento é como rapar o cabelo para eliminar a calvície. O ser sem apego não seria humano, a desumanidade é algo a ser buscado?

4. A real lição
O exagero não desqualifica a proposição. Há muita sabedoria escondida nas quatro premissas do Buda. O querer fútil só causa dor. Se tudo que tu queres na vida é comprar um carro do ano ou viajar para a China, então o cumprimento desses sonhos só vai trazer uma felicidade momentânea. Em poucos segundos já te encontrarás querendo outras coisas.

A dita iluminação, que eu chamaria controle sobre o querer, é realmente um valor a ser buscado. Impossível, porém, de ser alcançado com plenitude. Querer é um dos aspectos que nos torna humanos. No entanto, quanto mais controle sobre o querer, mais próximos estaremos da felicidade.

Felicidade que para mim existe. Felicidade é amor, amor que não quer retorno. É sabedoria, sabedoria que quer ser compartilhada. É compaixão, gerada pela pura simpatia.

links interessantes:
 [observação: o motivo principal da minha negação da doutrina budista é a sua natureza não individualista. Para Buda o indivíduo não existe, somos apenas resultado da condicionalidade. O conceito de indivíduo, segundo a doutrina, é vazio de significado. Mas isso é assunto para todo um outro artigo]

10 de setembro de 2011

Bundãozinho


Esse artigo é dedicado aos homens, mas é informativo às mulheres também

A bundãozice não é natural. Um bundão não nasceu bundão. Ele assim se tornou. O processo de bundalização é lento, porém natural. Sempre imperceptível e mortal. A bundãozice pode levar a morte ou pior: ao casamento.

O bundão não se vê bundão. Sua bundãozice é marginal a sua percepção de personalidade. Assim como todo cínico já foi um idealista, todo bundão já foi um cara decidido. São muitos os fatores que bundalizam o homem. Um mãe controladora, uma mulher com personalidade forte, um patrão chato. O espírito decidido é destruído a miúde, sem se ver. Cada "sim querida, não faço mais", cada resignação muda, cada desejo não justificado atendido é uma punhalada nas costas da liberdade do seu espírito.

O que é um bundão?
Bundão é homem resignado, cheio de medo, se é que podemos chamá-lo homem.. Tem medo de seus próprios desejos. Apagado, não tem consciência de si mesmo. Tem o espírito morto-vivo, que vive no limbo da escravidão.


Como não ser um bundão?
Apesar das mulheres estarem sempre, inconscientemente, tentando transformar os homens em bundões, elas não querem um bundão, elas querem um homem. Sê homem, não há nada de errado com isso. Nossa sociedade criminaliza os valores masculinos: a competitividade, a violência, a assertividade. Não há nada de errado com o comportamento do homem. Características masculinas (assim como femininas) são essenciais ao desenvolvimento da sociedade humana. Não aceite ameaças, nem comportamento passivo agressivo e principalmente não ajas de maneira passivo agressiva. Não aceitas pedidos não razoáveis, nada que tu não farias. Não te sintas culpado, homens e mulheres possuem papéis diferentes na sociedade; e viu Deus que isso era bom.

1 de setembro de 2011

Acúmulo de capital


No vídeo acima Steve Jobs, ex-CEO da apple, fala sobre sua estratégia para tomar decisões. Todo dia ao levantar-se, afirma, Jobs olha no espelho e se pergunta: "Se hoje fosse o último dia de minha vida, eu faria o que eu estou planejando fazer hoje?".
  1. Sobre os bens materiais
    A regra de Jobs me levou a refletir não sobre o que fazemos com nossas vidas, mas sobre posses. Há cerca de dois anos eu descobri que viria para Europa. Ganhei uma bolsa de estudos do governo brasileiro. Viajaria em seis meses para o velho continente podendo levar apenas duas malas e uma mochila.

    Instantaneamente, bens materiais passaram a ter outro significado em minha vida. Cada vez que pensava em comprar algo -- mesmo que fosse uma lapiseira -- eu refletia sobre o valor daquele objeto para mim e se eu iria levá-lo comigo para a Europa. Comprava menos e mais racionalmente.

    Igualmente aqui na França, continuo pensando da mesma forma. Porém, todos nós temos nossos momentos impulsivos. Por isso te aconselho, querida leitora, de utilizar uma pequena modificação da pergunta de Jobs na hora de decidir a essencialidade de algo que pensas comprar: "Se eu fosse fazer uma longa viagem amanhã com só uma mala, eu levaria isso que eu estou prestes a comprar?".

    Mesmo se não planejas viajar em um futuro próximo, essa é uma ótima regra da mão direita para decidir o que adicionará valor em tua vida. A vida, podemos dizer, é uma viagem. Estamos aqui, como lembrou Jobs, de maneira temporária. Nós nos apegamos aos bens materiais porque esses nos dão a ilusão de imortalidade, de segurança. Esquece essa ideia de segurança, vive como se a terra fosse explodir amanhã e tu fosses ser enviado em uma pequena nave para um planeta distante.

  2. Objetos e lembranças
    Seguido sempre de um momento feliz em minha vida, vem o medo de esquecê-lo. Quero que aquela felicidade que passou fique guardada dentro de mim e que possa acessá-la sempre que quiser; que aquele sentimento nunca se apague. Por esse motivo, e talvez por alguma predisposição genética, sempre tive a mania de guardar coisas, de guardar mementos na esperança de nunca esquecer de certos momentos.

    A memória, em especial a minha, não é, porém, misericordiosa. Com seu terrível bisturi ela destrói velhas memórias para dar lugar a novas. Momentos maravilhosos que pensávamos que nunca esqueceríamos, desaparecem como a memória de ter fechado a porta a chave hoje de manhã.

    Temos que aceitar a transitoriedade da vida. Momentos bons passam e se apagam, mas dão lugar a outros ainda melhores (ou não).
     
  3. Transtorno Obsessivo-Compulsivo
    Guardar coisas pode ser uma doença. TOC é um transtorno de ansiedade. Dentre as possíveis obsessões a de "armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar" figura como uma das mais comuns. Cuidado. Se na tua casa tem menos espaço para andar do que coisas, ou se tua casa cheira a mofo, então tu podes ter um problema psicológico. Procura um profissional.

  4.  Desprendimento
    A vida é mais curta do que imaginamos. Todos os bens materiais um dia desaparecem (talvez o plástico não...). Assim como nossos corpos vão desaparecer. Guardar velhas cartas, milhões de fotos em um HD, bilhetes de cinema, etc, posto que essencial a curto prazo, as vezes nos impede de avançar em direção a novas experiências. O desprendimento, portanto, é um dos caminhos para a felicidade.
links interessantes:

20 de junho de 2011

Texto inconsistente, mas completo.

Todos são inconsistentes. Seria quase impossível para uma mente humana não ter nenhuma inconsistência em seu raciocínio. Independente de como o sistema nervoso funciona, poderíamos dizer que guardamos dezenas de milhares de asserções em nossas cabeças. Checar cada uma delas par a par seria uma tarefa computacional intratável, ainda mais porque muitas vezes não possuímos as ferramentas intelectuais para verificar que duas proposições são contraditórias.

Um exemplo de duas proposições contraditórias que muitas pessoas mantêm (uma boa parte religiosa) é se opor fortemente ao aborto, mas apoiar a pena de morte. O problema não é intrínseco ao fato de ambas tratarem do ato do assassinato cometido por um terceiro. Mas sim dos argumentos levantados por seus defensores. Dois dos argumentos mais comuns contra o aborto são a santidade da vida e a potencialidade de cada indivíduo (geralmente há um apelo emocional envolvido, "imagine se tu abortasses Beethoven ou Einstein"). De outra parte temos a vida do culpado. Não era toda vida sagrada? o culpado não poderia se tornar um grande artista ou cientista em alguns anos?

De fato, checar nossas crenças par a par não seria o suficiente, algumas vezes teríamos que comparar diversas suposições para finalmente chegar em uma inconsistência. Como um parêntese, esse tipo de raciocínio não só levaria anos para ser feito, como não poderia ser automatizado. Portanto, mesmo que conseguíssemos colocar todo o conhecimento do homem em uma máquina, não poderíamos criar um processo que checaria a consistência de toda essa informação.

Em discussões, uma das armas preferidas para acabar com o oponente é apontar suas inconsistências. Todo o assunto polêmico tem esta propriedade: tomar qualquer posições te dá a obrigação de tomar diversas outras, algumas vezes pouco relacionadas, para evitar incoerências.

Outro artifício de argumentação é forçar incoerências. Por exemplo, relacionar homossexuais a negros, e usar o apoio aos direitos de um grupo como um impedimento à aposição do outro. Quando enfrentamos tais contradições, não é raro tentarmos minimizá-las utilizado generalizações. O problema dessa abordagem é que toda generalização destrói o contexto. No exemplo supracitado, dada generalização, poderíamos concluir que matar um ser humano é sempre errado. Nesse caso perdemos todo um gradiente de casos em que a morte de um ser humano poderia ser necessária, como em um caso de defesa pessoal. Ou um caso de um feto que traria riscos de vida à mãe caso a gravidez continuasse. Temos, no último caso, duas vidas em jogo. Porém o valor dessas vidas não é igual. A mãe com suas diversas experiências e memórias, valor para sociedade, valor para seus amigos e familiares, seria talvez sacrificada devido à santidade de um feto que nem sabemos ao certo se conseguirá sobreviver ao parto, e que possui pouco valor para qualquer um que não seus pais.

Dessa forma, temos somente uma opção: assumir que nossas bases ideológicas são incoerentes por natureza e que somente compreendendo a natureza dessas incoerências de uma maneira honesta poderemos chegar a uma posição mais livre de contradições.

Esse artigo tem uma contradição; tu consegues identificá-la?

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29 de abril de 2011

Jogue fora seus objetivos

Muita gente odeia autoajuda. Eu não. 

Porém, é preciso desenhar uma linha aqui. Com o passar dos anos, devido ao sucesso de livros de autoajuda, muita porcaria foi englobada ao gênero. Misticismo, magia, pseudociência, etc. A causa disso é que autoajuda tem em geral um tom altamente assertivo. Pessoas em geral aceitam -- e inclusive buscam -- esse tipo de tom, mas exigem argumentos, alguma base. Desse vácuo entre intuição/experiência e conhecimento é que tais pseudoargumentos fazem sua morada.

A ciência constantemente é usada como fonte de conhecimento. Mas como a maioria da população é iliterata, fazem mais sucesso obras que se baseiam em mágica ou crenças populares. Por ser tão assertiva, deixa relativistas (que compõe grande parte dos nossos  formadores de opinião) com um pé atrás. Ninguém mais pode ser assertivo atualmente, vivemos no mundo da incerteza. Mas claro, todo bom relativista moderno tem que aceitar qualquer coisa mística. A ciência sofre as críticas mais duras possíveis, mas quando a obra agrega "anjos" ou "energias" dentre as ferramentas de argumentação, os multiculturalistas atestam que temos que aceitar essas formas diferentes de pensar; passando a mãe na cabeça de charlatões.

Autoajuda sofre tanta descriminação porque traz consigo uma grande quantidade de porcaria. Quando se entra  nesse mundo é preciso ter discernimento para separar o joio do trigo. Existe muita coisa boa por aí (tanto baseada em estudos científicos, como em experimentação pessoal). Mas também muita coisa ruim (como já dito, misticismo). As vezes pepitas de sabedoria dentro dos lixos da literatura

Separar é importante, mas ainda mais é saber o limite; até onde aplicar esse conhecimento. A concentração faz o veneno, ou seja, se tu aceitares tudo que lês, com certeza vais ter problemas em tua vida. Esse tipo de literatura eleva demais as nossas expectativas. É muito fácil ler uma obra cheia de frases de efeito e sair achando que pode-se conquistar o mundo; só para dar de cara em uma parede dez metros à frente.

Tendo tudo isso em mente, é possível aproveitar muito desse conhecimento para desenvolvimento pessoal. Uma ótima fonte de conhecimento é a Internet, eu adoro ler blogs como o do Steve Pavlina, do Khatzumoto, entre outros. O que mais me atrai em autoajuda é a quebra de mitos ridículos que permeiam nossa sociedade. Como por exemplo o mito do talento (que é tema para outro artigo). Ainda, esse tipo de texto nos dá motivação, que, as vezes, é só o que precisamos para agir. Esses blogs, porém, mergulham demais em detalhes, tornando difícil a obtenção de uma visão geral sobre o assunto. Todos esses detalhes podem se resumir a uma coisa:

A vida não é sobre fins e sim sobre o percurso 
A vida não tem sentido. Não existe um grande baú de ouro no fim do arco-íris. A vida não tem objetivo porque a vida não é sobre o lugar que vamos, é sobre o percurso que tomamos. Bill Hicks disse como nós temos a incrível habilidade de que o que fazemos importa no fim, que estamos rumando para algum lugar, mas que no fim, a vida é só um percurso e que como tal, o que devemos fazer é aproveitá-la.

Se a vida é só um percurso, faz sentido ter ambições e sonhos? sim. Sonhos nos fazem querer levantar da cama de manhã. Mas não pendure-os na parede. Não saias dizendo a todos os teus amigos a toda hora.

Esqueça objetivos, pense nos meios
Planejar o futuro, criar múltiplos planos e viagens imaginárias, possíveis obras. Tudo isso é muito divertido e todo mundo o faz. O problema é que planejar não nos deixa nem um pouco mais perto de alcançar o objetivo. Planejar demais só nos deixa frustrados.

Vamos tomar perder peso como exemplo. Ficar sonhando como vai ser lindo caber em tal vestido não vai te fazer perder nem doze gramas. A opção é agir, mas mudanças de hábitos são peníveis a fazer. Disciplina é uma coisa que, cada vez mais, não vem do berço.

E que tal se em vez de mudar os hábitos repentinamente, mudar seus gostos. Gostar de comer de forma saudável ao invés de sofrer a cada refeição e dar escapadas nos fins de semana. Gostar de fazer exercícios, ter prazer do início ao fim com a sua prática. Seleciona habilidades importantes para alcançar o objetivo visado e gosta tanto de botá-las em prática que fica difícil não o fazer.

Só faze o que gostas
Parece contraintuitivo. Mas não é. Fazer coisas que tu não gostas só vai te fazer mal. Só vai te fazer desistir dos teus sonhos. É importante sempre se divertir com o que estás fazendo. Por exemplo, se queres aprender inglês. Compra ou baixa livros que te interessam em inglês. Mesmo se forem avançados. No início será um pouco difícil. Mas eu garanto que se o assunto te interessa, as palavras vão fixar muito mais em tua mente. É um fato sobre nosso cérebro, só aprendemos coisas que nos importam.

Eu sei que é muito mais fácil dito que feito. Mas vou re-enfatizar que mudar um hábito é a coisa mais difícil que existe. Para fazê-lo, começa pensando pequeno. Faze uma mudança na sua rotina por quinzena ou por mês. Começa um blog ou compra um diário onde tu podes registrar teu progresso.

Registre o progresso
Quando em busca de um objetivo, é muito fácil esquecer o quanto nós avançamos. A maioria dos objetivos não são dicotômicos. No aprendizado de uma língua por exemplo, não há um momento x onde se passa de uma pessoa que não fala nada para um falante fluente, há todo um contínuo.

Tu que lês hoje um livro de dezenas de páginas com facilidade, um dia sofreu para ler uma história em quadrinhos. É muito fácil esquecer o quanto alcançamos se nos perdermos em pensamentos do que poderíamos ser (se ficarmos presos ao objetivos). Esqueça o quanto falta para alcançar fluência, ou para caber no vestido. Lembre o quantos quilos já perdeste, ou como não sabias nem dizer "bom dia" há alguns meses.

Algo que muitos objetivos têm em comum é que notamos um progresso muito grande no início, mas com o passar do tempo atingimos um plateau, isto é, paramos de notar o progresso, mesmo avançando. Isso é especialmente forte no aprendizado de línguas. Em um ou dois meses de estudo notamos uma grande diferença no conhecimento. Passado um ano, ao começarmos a tentar ler coisas mais avançadas notamos mais e mais buracos em nosso entendimento. Isso leva a uma frustração muito grande. Só podemos ver o quanto falta para saber e não o quanto já avançamos: é por isso que é importante manter um registro de progresso.

Colhendo os frutos
Vai chegar um ponto em que estarás satisfeito com o progresso que fizeste. Agora é importante mostrar-se. Não exibir-se, mas utilizar as habilidades adquiridas constantemente. Aproveitar toda a oportunidade para melhorar ainda mais.O mundo é tua ostra!

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