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21 de fevereiro de 2015

Vemödalen

Marcos temia já ter visto e ouvido tudo.

Nunca achava graça de nada. Todas as frases que escutava traziam consigo o mesmo som. Aquele sentimento de Déjà-vu. Não conseguia ter uma conversa sincera com ninguém. Parecia que tudo que lhe diziam já lhe tinha sido dito, senão a ele, a alguém, em algum momento.

Há anos não lia livros, não via filmes. Não achava graça de comédias: as piadas pareciam todas velhas. Um dia simplesmente desistiu de ler qualquer coisa.

Seus relacionamentos duravam sempre algumas semanas. Uma vez, em um segundo encontro, dormiu na mesa do bar. Não tinha tampouco amigos. Ninguém lhe entendia e não existem muitas ocasiões sociais para alguém que não gosta de conversar e não tem interesses. Ele até tentava fingir que se interessava por aquilo que os outros diziam, mas transparecia em suas atitudes o quanto tudo lhe causava malaise.

Já tinha tentado de tudo. Tentou viajar. Tentou fazer yôga, curso de teatro, de dança, de mandarim. Tentou ir na igreja, pular de paraquedas, até aeromodelismo. Tentou ir em todos os restaurantes, boates e eventos. Não adiantava, nada era novidade. 

E por não ser novidade não lhe dava prazer. O sentimento de repetição se tornou um tormento tão grande que Marcos não sentia contentamento em fazer nada. Tem coisas que a gente dá como garantido. Por mais que a vida seja sofrida, temos consolo na esperança. Esperança era algo que Marcos vinha lentamente perdendo.

Não vivia, suportava a vida. Ia da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Parecia que era feito de um material diferente das outras pessoas. Invejava os colegas de trabalho que conversavam e riam no intervalo em frente a cafeteira. Mesmo assim prosseguia. Ainda existia uma pequena esperança de que em algum lugar iria encontrar algo novo, algo que lhe atiçasse a curiosidade e o fizesse viver novamente.

* * *

Um dia, uma velha senhora que estava a sua frente resolveu pagar suas compras usando somente moedas. Irritado com a demora, Marcos desabafa com a pessoa na sua frente que ele achava que pessoas idosas deveriam ter um horário especial para comprar. Quem se vira é uma jovem morena de óculos que lhe diz:

– Eu não tenho pressa.

Seu nome era Marcela. Aquelas palavras que não tinha nada de novo, para Marcos soaram como a última profecia. Um sentimento de confusão lhe invadiu. Não sabia o que dizer. A acompanhou até sua casa (que era do lado contrário à sua). Tiveram naqueles quinze minutos de caminhada a melhor conversa que Marcos já teve. Saboreava cada palavra que Marcela dizia. Parecia que tinha achado um oásis depois de anos no deserto. Um sentimento que lhe era raro lhe preenchia: Curiosidade. Queria saber tudo sobre aquela mulher. Onde ela estudou? que tipo de sorvete ela gostava? como foi a sua infância? Ele queria só absorver tudo o que pudesse, já queria pular para o futuro e entender tudo sobre ela.

Agora tudo era diferente. Assistiu um filme do Adam Sandler e morreu de rir. Achou McDonalds delicioso. Chorou lendo A Culpa é das Estrelas. Mas o que tinha acontecido? não era o mundo que tinha mudado, era Marcos. Nada era novo, tudo estava nas mesmas coordenadas de sempre, mas marcos havia rotacionado: via tudo sob um novo ângulo.

Não era como se Marcela fosse alguém especial. Não tinha nada de surpreendente. Era bonita, mas não de derrubar queixos. Era inteligente, mas não era um gênio. Se vestia modestamente, nada de super fashion, mas tampouco roupas desajustadas.

E aquela velha insatisfação que Marcos sentia agora era só uma memória distante. Via Marcela todo dia, e eles faziam as coisas mais comuns e eram felizes.

No aniversário de um ano daquele dia no supermercado, Marcos queria escrever uma mensagem à Marcela lhe agradecendo pela mudança que ela tinha causado em sua vida. A carta ficou cheia de lugares comuns, mas Marcos não se importou porque ela era Original. No grande esquema das coisas ela era original. Mesmo que outros já tivessem escrito uma carta igual ela era original. Originalidade não é uma função.

31 de dezembro de 2012

Sonhar tem custo



Acaba o ano e o assunto preferido é o ano que vem. Quais sonhos vão virar realidade esse ano?

O sonho do Pedrinho era ser jogador de futebol. Via todas as partidas da seleção e de seu time do coração. Tinha o uniforme, as meias, as chuteiras. Sabia o nome de todos os jogadores e quantos gols fizeram no ano passado. Usava o corte de cabelo do artilheiro, quem decorava as paredes de seu quarto.

Sempre que fechava os olhos, se via em pleno Maracanã. Ouvindo os gritos da torcida, bombas e fogos. Porém, sonhos era tudo que tinha, Pedrinho não tinha movimento nas pernas, suas alucinações não passariam disso.

Quantos sonhos viram realidade? quantos sonhos fazem sentido? Sonhar tem custo sim. Cada vez que empurravam a cadeira de rodas de pedrinho, seu coração diminuía. E qual é a alternativa? Será que Pedrinho seria mais feliz se sonhasse ser analista de sistemas ou radialista?

Vivemos mais de fantasia hoje do que em qualquer outra época da civilização. Pessoas vêem mais de quatro horas de televisão por dia. E a Televisão sobrevive de publicidade. A cada trinta minutos na poltrona, uma dúzia de sonhos são "vendidos" aos nobres telespectadores. Palavra mais apropriada seria empurrados goela a baixo.

E quantos desses sonhos são possíveis? muitos sonhos são um jogo de soma zero: só pode haver um campeão de boxe na categoria peso-pena. Isso significa que centenas de jovens de nariz quebrado vão acordar todos os dias às três da manhã, treinar o dia inteiro, comer a dieta estrita dos campeões, só para verem seus sonhos estraçalhados, como seus narizes, pelas mãos do campeão. 

De novo, qual é a alternativa? se todos fossemos inteiramente racionais, teríamos um mundo de banqueiros e advogados. A realização do sonho nos traz somente o prazer momentâneo da glória. É a busca que nos motiva. Quando Pedrinho fecha os olhos, ele é mais feliz que o artilheiro. Quando o peso-pena acorda, ele tem muitos motivos para levantar da cama, nenhum nariz quebrado vai impedi-lo de pisar no ringue. Esse é o drama humano, somos providos com muita ambição e poucas oportunidades. Realizamos objetivos só para criarmos mais, cada vez mais impossíveis.

Mas o drama previsível não enche o teatro. Vamos quebrar nossos narizes em 2013!

10 de novembro de 2012

Não existem bengalas


O guia ainda não foi escrito, e nem vai ser: a iniquidade do ímpio é a glória do outro.

Entre duas pessoas existe um abismo infinito. Por isso só ouvimos eco, não há o outro, só vazio. Só nós mesmos. O outro fala, as palavras chegam deformadas: as reconstruímos com nossos próprios verbos e preconceitos. Ninguém te entende? de fato.

Então nos vemos encurralados na Realidade: um abismo infinito em torno de nós mesmos, mas de onde podemos ver os outros. Seus crimes, seus sucessos. Nossos crimes são mais doces, seus crimes, amargos.

Daí vem a tragédia da vida: o abismo é invisível. Falamos baixinho, no ouvido, pensando que somos escutados. Ouvimos palavras doces, as cremos verdade. A verdade afunda no abismo, se perde nas nuances do significado.

Nos vemos rodeados por gente, mas nos sentimos sozinhos, ignorantes do abismo. 

É daí que nasce todo conflito: erros de transmissão.

Mas poderia ser de outra maneira? existe a língua franca sem ruído? sem perda? É a esperança da humanidade, é a suposição tácita da ciência, da religião. É o motivo pelo quão prosperam, e também sua miséria.

Caminhamos como cegos que acham que enxergam. Sofremos as consequências. Uns ainda se acham menos cegos que os outros: escrevem livros, olham de cima. Esses tem a maior queda: substituem ainda mais verbos nas mensagens que recebem. São ainda mais cegos.

Quem sabe do abismo, sabe que é cego. Porém não existem bengalas.

3 de setembro de 2012

Sozinho na multidão


O mundo é do indivíduo. O triunfo máximo da iluminação é o fim do coletivo, da tribo, do grupo. Vivemos, dizem, na época mais pacífica e próspera da história da humanidade. Porém cresce um problema endêmico e silencioso. Um que não altera índices, que não passa por métricas. O mundo moderno, dos números, da ciência, não enxerga o que não é taxa, o que não cabe na célula do Excel.

O homem é cada vez mais urbano, mais apertado em apartamentos pequenos, mais amassado em transportes públicos ou preso no tráfego; cada vez mais sozinho. E não é coincidência: a solidão é propagada devido a seu subproduto: o consumismo.

O homem só só consome. Quando entre amigos, é feliz, é criativo, é ativo. Quando sozinho é reativo, é mesquinho, é egoísta. Compra porque está preso dentro de si. Passa a tarde no shopping procurando um sapato, tarde consumindo e sendo consumido. Tentando preencher o vazio da solidão.

A igreja se comercializou, o espírito fica entre a roupa nova e a nova TV. Vai para a Igreja para pedir mais dinheiro, paga o imposto para Deus. Velas para comprar. Indulgências, vagas no céu. Decalques no carro, CDs e DVDs. As religiões que se dizem contra o consumismo são as mais hipócritas: a aula de Yoga, o incenso, a calça trançada, a droga, tudo é consumo. Meditar agora é consumir.

A diversão é o consumo. Agora a diversão é na cadeira, na frente do computador, consumido mídia, adicionando fotos, colecionando "amigos", ganhando níveis, juntando itens, consultando preços.

Amanhã eu não consumo, vou sentar com meu amigo, conversar sobre conversas, sem comprar o maldito refrigerante.

12 de agosto de 2012

O pássaro e o executivo



Em umas longínquas montanhas na Índia vivia um mestre budista em um grande templo. O acesso por qualquer meio de transporte humano era quase impossível. A única forma de chegar nesse templo era através de uma densa selva e uma dura escalada.

Luís Roberto era um jovem empresário, com seus apenas trinta e dois anos já era milionário e estava a frente de um grupo com mais de seis mil funcionários. Tão jovem e com tanto sucesso, não havia muito que Luís não conseguia por pura determinação. Porém, não era feliz.

Já tinha tido muito amores que não deram certo, já tinha tentado quase todas as religiões. Fora do campo profissional, considerava sua vida uma fracasso. Parecia sempre estar buscando alguma coisa, que não sabia o que era. Além de todo o sofrimento emocional, sua saúde já estava em risco devido a anos de negligência de sua parte. A vida corrida de um empresário não deixava tempo para dormir e se alimentar direito.

Foi então que um jovem, vestido com uma bata budista e chinelos, entregou a Luís Roberto um livro. Esse livro, de capa dura, com páginas amarelas e roídas, castigado pelo tempo e por traças, descrevia no primeiro capítulo tudo que o jovem empresário sofria: as insônias frequentes, o medo de se abrir com outras pessoas, a busca pelo espiritual. Aquele livro parecia ter sido escrito para ele.

O segunda capítulo do livro usava jargões budistas que Luís não entendia para explicar a solução de todos aqueles problemas. Luís passou noites e noites acordado tentando entender o capítulo dois. Procurou cada um dos termos na Internet atrás de alguma explicação: não encontrou nada.

Foi atrás de um especialista: foi em vários templos budistas espalhados pelo Brasil, ouviu falar muito sobre o budismo e seus princípios, mas nada sobre o capítulo segundo daquele livro misterioso, ninguém, nem mesmo os mestre budistas, entendiam aqueles termos ou os argumentos. Luís já estava quase desistindo quando sua esperança foi reascendida: um jovem discípulo de um templo em São Paulo lhe disse que aqueles termos pertenciam a uma corrente já quase esquecida do budismo, cujos últimos discípulos se encontravam em um templo de difícil acesso na Índia.

Luís então tomou uma decisão: precisava entender aquilo, com a mesma determinação que usou para chegar ao primeiro milhão, chegaria também à felicidade. Sob o risco de perder todo o sucesso material que tinha alcançado até ali, partiu no dia seguinte para as ditas montanhas: descobriria a solução para suas angústias ou morreria tentando. Encontrou, em nova Déli, dois guias que conheciam a área em torno do templo. Foi avisado por todos que muitos morreram tentando lá chegar, que o caminho era cheio de perigos. O jovem milionário não chegara tão longe para desistir.

Depois de seis dias de caminhada pela selva, finalmente chegaram ao pé da montanha, a partir dali seriam dois dias de escalada (havia um pequeno vale onde poderiam acampar mais ou menos a três quartos do caminho). A escalada foi dura, especialmente para Luís Roberto, que não era um grande esportista. No caminho para cima, os viajantes viam cordas rompidas e marcas de unhas que indicavam os fracassos passados, cada uma dessas evidências de perigo deixavam Luís ainda mais determinado.

Finalmente chegou no templo, não acreditava na beleza daquela construção intocada pelos séculos. Tinha um estilo que nunca tinha visto, mas que lembrava os templos zen japoneses. A cada três metros nas paredes havia uma figura monstruosa revestida a ouro. As paredes, sem nenhum defeito, eram pintadas com preto e dourado. O jardim era incrível, cada milímetro parecia ter sido planejado. Como tinha sido construído era um mistério: quem teria levado todo aquele ouro e tijolos? Foi recebido por dois jovens discípulos que vestiam roupas idênticas às do rapaz que lhe entregou o fatídico livro: Luís sentia a mesma excitação que sentiu ao vender a sua primeira empresa. 

Foi levado até o mestre.

Subindo uma escada que não parecia ter fim, dentro de uma pequena construção, atrás de duas estátuas aterrorizantes de leões, estava o mestre. Luís nunca tinha visto alguém tão velho, era difícil determinar a sua idade, devido a penumbra e o fato que o idoso raramente se movia. Mas sua voz entregava o castigo dos anos, disse:

- Eu sei porque tu estás aqui, todos vêm pelo mesmo motivo -- demorou cerca de trinta segundos para terminar essa frase, aparentemente já não falava há dias.

- Então -- respondeu rapidamente o jovem empresário -- me explique, mestre, o capítulo dois.

Até que o mestre respondesse, passaram-se três minutos. Esse tempo pareceu dois anos para Luís, toda aquela espera e dificuldade, que somavam-se aos anos de angústias pessoais, faziam sua mente correr a dez mil quilômetros por hora. Tudo parecia se misturar em seu cérebro, seu coração batia acelerado. Toda aquela adrenalina lhe deixava tonto. Seu coração quase parou quando o mestre começou novamente a falar:

- O homem é o único ser dessa terra que tem a capacidade de alcançar a iluminação. Mas nem todo homem nasce igual. Tu estás acostumado a ter tudo que desejas, mas não te satisfazes. O motivo é que desejas a coisa errada. Não é na riqueza e no poder, nem no amor de mulheres, nem na admiração e inveja de homens, que está a tua satisfação: ela só vai ser alcançada no momento em que descobrires o Sentido da Vida.

- O Sentido da Vida? -- respondeu, incrédulo -- então o mestre sabe o Sentido da Vida?

- Faze o seguinte: vai e encontra a ave azul de patas roxas que fala a língua dos homens, entenderás então o Sentido da Vida.

- Como assim? uma ave azul de patas roxas? o que isso tem a ver com o sentido da vida? é um papagaio? eu não entendo, por favor me explique!

O mestre não disse mas nenhuma palavra. Luís ficou doze horas tentando fazer o mestre explicar melhor o que aquilo significava. Mas o mestre permanecia imóvel, o único movimento que fazia era piscar, apenas uma vez a cada vinte minutos.


Luís saiu de lá desconsolado. Como uma pássaro iria fazê-lo descobrir o Sentido da Vida? Talvez tantos anos em um templo longínquo teriam levado aquele velho à loucura. No entanto Luís Roberto não chegou tão longe para nada, ele não era do tipo que desistia na primeira adversidade. Iria encontrar aquele pássaro ou morrer tentando.

Passou os próximos cinco anos procurando a bendita ave, andou pelos quatro cantos do mundo. Uma pista falsa levava a o outra pista falsa, que levava a um beco sem saída. Buscava cegamente, sem pensar em nada além de seu objetivo. Não perdia um só minuto e não se dava luxo de indulgências. Sua vida era só procurar, procurar, procurar. E enquanto buscava, suas empresas, sem seu comando, foram falindo, uma a uma, até que nada restou de sua fortuna, legado e fama.

Derrotado, Luís Roberto voltou ao templo. Iria implorar ao mestre pela resposta. Se não a conseguisse, se jogaria do alto da montanha, nada mais importava para ele, todos os seus bens e conquistas tinha desaparecido. Enquanto escalava a montanha, desta vez sem a ajude de guias, se sentia estranhamento calmo. Teria se resignado a seu destino? talvez os fracassados sejam livres, livres de responsabilidades, de expectativas. Ainda assim algo lhe roía por dentro: não achara o pássaro, nem o Sentido da vida.

Ao chegar ao topo do templo, não pode nem falar antes de ser interrompido pelo mestre:

- Então jovem que tem tudo que deseja, encontraste o pássaro?

- Não, usei todos os recursos e forças que tinha, mas não encontrei -- dizendo isso, Luís se ajoelhou, e continuou -- por favor mestre, preciso saber, perdi cinco anos da minha vida, só procurei, procurei e procurei. Mas não achei nada.

- Passaste anos procurando o pássaro de penas azuis e patas roxas, se tivesses o encontrado, terias descoberto o sentido da vida. Porém o pássaro não existe.

Nesse momento, Luís Roberto descobriu toda a verdade: o mestre era um pau no cu.

25 de junho de 2012

Excesso de informação


Cansei de escrever rebuscado. Escritor que é escritor escreve simple. Sem "esses" nos finais das palavras, ignora a ortografia, a cria. Reinventa a gramática. Escritor toma banho na sanga. Bebe no gargalo e deita direto na areia. 

Mas eu não sou escritor, minha infância foi feliz. Ainda não contrai a tuberculose. Então por que diabos tenho um blog? por que escrevo se não sou escritor? para descobrir a Verdade? O que é a Verdade? qual a cor da verdade? verde? 

Ninguém lê mais, os livros estão em formato binário. As conversas entre amigos estão codificados em utf8. Arte em jpeg. Na tela do cinema um modelo 3d projetado num frame 2d que simula uma visão 3d.

É tudo uma casca, casca de mentiras (não uma casca de mentira, apesar de que não é uma casca de verdade) que esconde nossos sentimentos. A beleza da flor coberta pela sombra da nuvem negra da ilusão.
 
A modernidade entra nos olhos da menina de oito anos. Que clica, preenche formulários, esquece que é animal, que descende do rato que usa para clicar na imagem morta.

Mas quão diferentes somos do rei coroado? das pirâmides vazias e inacabadas? O mundo do homem é símbolo e sempre foi. Nada mudou, os saudosistas se enganam tudo é código, até a violência, a dor, é símbolo. O retorno à natureza é impossível por que lá nunca estivemos. 

É por isso que escrevo, porque violência é símbolo.

21 de março de 2012

Nunca comeces um artigo com "para mim"


Para mim as pessoas não são assim tão diferentes. As coisas não mudam tanto assim (nem mesmo "nos dias de hoje"). Não mudam e nem mudam para melhor. Tudo é estatisticamente igual.

As leis da física valem aqui na Terra e também no outro lado do Universo. O que mudam são as condições normais de temperatura e pressão e o nível do mar, se mar existir.

O que nos deturpa os sentidos é o ego. Julgamos nossos problemas e nós mesmos especiais. Se assim não fizéssemos, não estaríamos aqui como civilização. Que civilização? sempre o sistema vigente é o mais justo possível. E também o subsequente para seus contemporâneos. Portanto acreditamo-nos o centro dos tempos e da moral.

Se toda civilização é especial, nenhuma o é.

Tudo é subjetivo? essa ideia data ainda do tempo em que acreditávamos que o homem nascia uma folha em branco moral que se era preenchida em seus tenros dias. Hoje sabemos que grande parte de nossas decisões são regidas pela constituição genética. Mesmo se não acreditarmos no determinismo, ainda nos resta a inevitabilidade de uma influência em nossa tomada de decisão.

Se as ações são baseadas na genética, e essa é extremamente similar* entre os seres da mesma espécie. Então não teríamos alguma tipo de objetividade? pelo menos em termos de humanidade.

* exageramos as diferenças por ego. Maldito ego, pai da civilização.

2 de novembro de 2011

Homem-ameba

Micro-organismos não possuem um sistema nervoso, suas ações são todas determinadas por processos químicos. Seu comportamento, que não é influenciado por nenhuma forma de consciência, no entanto, para um observador externo, parece demonstrar inteligência. A ameba se move e parece procurar os alimentos e parece escolher qual alimento vai anexar. Mas na verdade só está obedecendo a uma série de regras simples que determinam totalmente suas ações.

O ser humano é só mais um (complexo) sistema biológico. Nossas ações, por mais que pareçam totalmente provindas de um intelecto, são resultados de complexas iterações químicas entre células. Processos químicos determinam completamente nosso comportamento. O pensamento é mais um processo químico, neurônios se relacionam através de hormônios e impulsos elétricos com os tecidos que compõe nossos corpos. A soma de impulsos externos e o estado do nosso corpo determina a próxima ação.

Se, munidos de informação total do estado do mundo (totalmente, com precisão infinita), pudéssemos determinar o novo estado totalmente, então teríamos o Determinismo. Esse pode não ser o caso se existir algum componente aleatório na mistura.

Aleatório ou não, o processo é assaz complicado. A exigência de precisão infinita impede que possamos construir uma máquina que possa prever o futuro. Logo, o processo de tomada de decisões é caótico, ou seja, é um sistema complexo. Isso faz com que, mesmo que não tenhamos liberdade, possamos agir como se tivéssemos. O campo das ações seria uma realidade separada do campo das reações celulares.

Mesmo assim, teríamos o seguinte problema: se todas as nossas ações são determinadas, como poderíamos punir um criminoso (já que, em última instância, ele não teria outra escolha que não a que tomou)? 

Discute nos comentários!

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9 de outubro de 2011

A origem do sofrimento

0. As quatro nobres verdades
Buda, como primeiro ensinamento à seus discípulos, vislumbrou as quatro nobres verdades. Que são, em resumo:
  1. A vida é sofrimento
  2. Todo sofrimento vem do apego
  3. Há uma forma de se livrar do apego
  4. Esse caminho é o nobre caminho óctuplo
Vamos ignorar a quarta, pois é puramente religiosa. Quero que vocês me acompanhem na análise das três primeiras proposições.

1. A vida é sofrimento
Consegues lembrar-te de um só dia em que não sofreste? sofrimento é um dos aspectos que definem a nossa existência. Nossa vida é um grande fluxo de sofrimento pontuado por curtos períodos de felicidade, que são tão momentâneos que deixam dúvida quanto a sua existência.

De um ponto de vista evolutivo, faz sentido que haja mais sofrimento que felicidade. Se a felicidade fosse obtida facilmente e de muitas formas diferentes, os indivíduos teriam pouco incentivo em buscar uma melhora de suas condições. Porém se não existisse nenhuma felicidade, os seres não teriam também nenhum incentivo para viver. Uma vida cheia de sofrimento da qual, com algum esforço, se possa obter essas pequenas pepitas efêmeras de felicidade é prolífera em qualidades que garantem a sobrevivência da espécie.

Milhões de anos de seleção natural geraram o ser humano, a melhor espécie em termos de sofrimento e, não coincidentemente, a campeã na batalha da seleção natural. Somos tão bons em sofrer que sofremos tanto fisicamente, quanto mentalmente. Vê só: somos tão hábeis em sofrer que criamos uma nova categoria de sofrimento.

Todas as grandes conquistas da humanidade podem ser explicadas em termos de tentativas de escapar do sofrimento. O sofrimento de não saber das coisas criou a religião e a ciência. O medo da morte criou a religião e a medicina. Medo também é sofrimento: é sofrimento da perda antecipada.

2. Todo sofrimento vem do apego
A verdade primeira de buda exclui totalmente a felicidade como algo a ser buscado (valor tão impregnado na cultura ocidental). Para ele, a felicidade é a exceção da regra, algo a ser temido. Tudo que a felicidade faz é gerar mais sofrimento. Quando encontramos algo que nos traz felicidade, junto dela vem o medo de perdê-la.

A felicidade é impossível de ser alcançada, seus efeitos colaterais destroem totalmente o seu propósito. É daí que ele obtém a origem do sofrimento: o apego. O desejo incontrolável de manter tudo como está. O medo da perda. A dor física é apego ao corpo, a dor da perda do ente querido vem do apego a esse.

Para Buda, o real alvo a ser buscado é a iluminação e não a felicidade.

3. Existe uma maneira de acabar com o sofrimento
É aqui que começamos a entrar no terreno arenoso na qual a fé se prolifera. O sofrimento, posto que é aspecto tão definidor dos seres vivos, deve ser, segundo Buda, totalmente eliminado. Como uma erva daninha, para eliminar a consequência (o sofrimento) destruímos a raiz (a origem do sofrimento: o apego).

Porém, as coisas não são tão simples quanto parecem nas simples frases enigmáticas do Iluminado (que não foram aqui reproduzidas com exatidão). Eliminar o apego para acabar com o sofrimento é como rapar o cabelo para eliminar a calvície. O ser sem apego não seria humano, a desumanidade é algo a ser buscado?

4. A real lição
O exagero não desqualifica a proposição. Há muita sabedoria escondida nas quatro premissas do Buda. O querer fútil só causa dor. Se tudo que tu queres na vida é comprar um carro do ano ou viajar para a China, então o cumprimento desses sonhos só vai trazer uma felicidade momentânea. Em poucos segundos já te encontrarás querendo outras coisas.

A dita iluminação, que eu chamaria controle sobre o querer, é realmente um valor a ser buscado. Impossível, porém, de ser alcançado com plenitude. Querer é um dos aspectos que nos torna humanos. No entanto, quanto mais controle sobre o querer, mais próximos estaremos da felicidade.

Felicidade que para mim existe. Felicidade é amor, amor que não quer retorno. É sabedoria, sabedoria que quer ser compartilhada. É compaixão, gerada pela pura simpatia.

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 [observação: o motivo principal da minha negação da doutrina budista é a sua natureza não individualista. Para Buda o indivíduo não existe, somos apenas resultado da condicionalidade. O conceito de indivíduo, segundo a doutrina, é vazio de significado. Mas isso é assunto para todo um outro artigo]

1 de setembro de 2011

Acúmulo de capital


No vídeo acima Steve Jobs, ex-CEO da apple, fala sobre sua estratégia para tomar decisões. Todo dia ao levantar-se, afirma, Jobs olha no espelho e se pergunta: "Se hoje fosse o último dia de minha vida, eu faria o que eu estou planejando fazer hoje?".
  1. Sobre os bens materiais
    A regra de Jobs me levou a refletir não sobre o que fazemos com nossas vidas, mas sobre posses. Há cerca de dois anos eu descobri que viria para Europa. Ganhei uma bolsa de estudos do governo brasileiro. Viajaria em seis meses para o velho continente podendo levar apenas duas malas e uma mochila.

    Instantaneamente, bens materiais passaram a ter outro significado em minha vida. Cada vez que pensava em comprar algo -- mesmo que fosse uma lapiseira -- eu refletia sobre o valor daquele objeto para mim e se eu iria levá-lo comigo para a Europa. Comprava menos e mais racionalmente.

    Igualmente aqui na França, continuo pensando da mesma forma. Porém, todos nós temos nossos momentos impulsivos. Por isso te aconselho, querida leitora, de utilizar uma pequena modificação da pergunta de Jobs na hora de decidir a essencialidade de algo que pensas comprar: "Se eu fosse fazer uma longa viagem amanhã com só uma mala, eu levaria isso que eu estou prestes a comprar?".

    Mesmo se não planejas viajar em um futuro próximo, essa é uma ótima regra da mão direita para decidir o que adicionará valor em tua vida. A vida, podemos dizer, é uma viagem. Estamos aqui, como lembrou Jobs, de maneira temporária. Nós nos apegamos aos bens materiais porque esses nos dão a ilusão de imortalidade, de segurança. Esquece essa ideia de segurança, vive como se a terra fosse explodir amanhã e tu fosses ser enviado em uma pequena nave para um planeta distante.

  2. Objetos e lembranças
    Seguido sempre de um momento feliz em minha vida, vem o medo de esquecê-lo. Quero que aquela felicidade que passou fique guardada dentro de mim e que possa acessá-la sempre que quiser; que aquele sentimento nunca se apague. Por esse motivo, e talvez por alguma predisposição genética, sempre tive a mania de guardar coisas, de guardar mementos na esperança de nunca esquecer de certos momentos.

    A memória, em especial a minha, não é, porém, misericordiosa. Com seu terrível bisturi ela destrói velhas memórias para dar lugar a novas. Momentos maravilhosos que pensávamos que nunca esqueceríamos, desaparecem como a memória de ter fechado a porta a chave hoje de manhã.

    Temos que aceitar a transitoriedade da vida. Momentos bons passam e se apagam, mas dão lugar a outros ainda melhores (ou não).
     
  3. Transtorno Obsessivo-Compulsivo
    Guardar coisas pode ser uma doença. TOC é um transtorno de ansiedade. Dentre as possíveis obsessões a de "armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar" figura como uma das mais comuns. Cuidado. Se na tua casa tem menos espaço para andar do que coisas, ou se tua casa cheira a mofo, então tu podes ter um problema psicológico. Procura um profissional.

  4.  Desprendimento
    A vida é mais curta do que imaginamos. Todos os bens materiais um dia desaparecem (talvez o plástico não...). Assim como nossos corpos vão desaparecer. Guardar velhas cartas, milhões de fotos em um HD, bilhetes de cinema, etc, posto que essencial a curto prazo, as vezes nos impede de avançar em direção a novas experiências. O desprendimento, portanto, é um dos caminhos para a felicidade.
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20 de junho de 2011

Texto inconsistente, mas completo.

Todos são inconsistentes. Seria quase impossível para uma mente humana não ter nenhuma inconsistência em seu raciocínio. Independente de como o sistema nervoso funciona, poderíamos dizer que guardamos dezenas de milhares de asserções em nossas cabeças. Checar cada uma delas par a par seria uma tarefa computacional intratável, ainda mais porque muitas vezes não possuímos as ferramentas intelectuais para verificar que duas proposições são contraditórias.

Um exemplo de duas proposições contraditórias que muitas pessoas mantêm (uma boa parte religiosa) é se opor fortemente ao aborto, mas apoiar a pena de morte. O problema não é intrínseco ao fato de ambas tratarem do ato do assassinato cometido por um terceiro. Mas sim dos argumentos levantados por seus defensores. Dois dos argumentos mais comuns contra o aborto são a santidade da vida e a potencialidade de cada indivíduo (geralmente há um apelo emocional envolvido, "imagine se tu abortasses Beethoven ou Einstein"). De outra parte temos a vida do culpado. Não era toda vida sagrada? o culpado não poderia se tornar um grande artista ou cientista em alguns anos?

De fato, checar nossas crenças par a par não seria o suficiente, algumas vezes teríamos que comparar diversas suposições para finalmente chegar em uma inconsistência. Como um parêntese, esse tipo de raciocínio não só levaria anos para ser feito, como não poderia ser automatizado. Portanto, mesmo que conseguíssemos colocar todo o conhecimento do homem em uma máquina, não poderíamos criar um processo que checaria a consistência de toda essa informação.

Em discussões, uma das armas preferidas para acabar com o oponente é apontar suas inconsistências. Todo o assunto polêmico tem esta propriedade: tomar qualquer posições te dá a obrigação de tomar diversas outras, algumas vezes pouco relacionadas, para evitar incoerências.

Outro artifício de argumentação é forçar incoerências. Por exemplo, relacionar homossexuais a negros, e usar o apoio aos direitos de um grupo como um impedimento à aposição do outro. Quando enfrentamos tais contradições, não é raro tentarmos minimizá-las utilizado generalizações. O problema dessa abordagem é que toda generalização destrói o contexto. No exemplo supracitado, dada generalização, poderíamos concluir que matar um ser humano é sempre errado. Nesse caso perdemos todo um gradiente de casos em que a morte de um ser humano poderia ser necessária, como em um caso de defesa pessoal. Ou um caso de um feto que traria riscos de vida à mãe caso a gravidez continuasse. Temos, no último caso, duas vidas em jogo. Porém o valor dessas vidas não é igual. A mãe com suas diversas experiências e memórias, valor para sociedade, valor para seus amigos e familiares, seria talvez sacrificada devido à santidade de um feto que nem sabemos ao certo se conseguirá sobreviver ao parto, e que possui pouco valor para qualquer um que não seus pais.

Dessa forma, temos somente uma opção: assumir que nossas bases ideológicas são incoerentes por natureza e que somente compreendendo a natureza dessas incoerências de uma maneira honesta poderemos chegar a uma posição mais livre de contradições.

Esse artigo tem uma contradição; tu consegues identificá-la?

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29 de abril de 2011

Jogue fora seus objetivos

Muita gente odeia autoajuda. Eu não. 

Porém, é preciso desenhar uma linha aqui. Com o passar dos anos, devido ao sucesso de livros de autoajuda, muita porcaria foi englobada ao gênero. Misticismo, magia, pseudociência, etc. A causa disso é que autoajuda tem em geral um tom altamente assertivo. Pessoas em geral aceitam -- e inclusive buscam -- esse tipo de tom, mas exigem argumentos, alguma base. Desse vácuo entre intuição/experiência e conhecimento é que tais pseudoargumentos fazem sua morada.

A ciência constantemente é usada como fonte de conhecimento. Mas como a maioria da população é iliterata, fazem mais sucesso obras que se baseiam em mágica ou crenças populares. Por ser tão assertiva, deixa relativistas (que compõe grande parte dos nossos  formadores de opinião) com um pé atrás. Ninguém mais pode ser assertivo atualmente, vivemos no mundo da incerteza. Mas claro, todo bom relativista moderno tem que aceitar qualquer coisa mística. A ciência sofre as críticas mais duras possíveis, mas quando a obra agrega "anjos" ou "energias" dentre as ferramentas de argumentação, os multiculturalistas atestam que temos que aceitar essas formas diferentes de pensar; passando a mãe na cabeça de charlatões.

Autoajuda sofre tanta descriminação porque traz consigo uma grande quantidade de porcaria. Quando se entra  nesse mundo é preciso ter discernimento para separar o joio do trigo. Existe muita coisa boa por aí (tanto baseada em estudos científicos, como em experimentação pessoal). Mas também muita coisa ruim (como já dito, misticismo). As vezes pepitas de sabedoria dentro dos lixos da literatura

Separar é importante, mas ainda mais é saber o limite; até onde aplicar esse conhecimento. A concentração faz o veneno, ou seja, se tu aceitares tudo que lês, com certeza vais ter problemas em tua vida. Esse tipo de literatura eleva demais as nossas expectativas. É muito fácil ler uma obra cheia de frases de efeito e sair achando que pode-se conquistar o mundo; só para dar de cara em uma parede dez metros à frente.

Tendo tudo isso em mente, é possível aproveitar muito desse conhecimento para desenvolvimento pessoal. Uma ótima fonte de conhecimento é a Internet, eu adoro ler blogs como o do Steve Pavlina, do Khatzumoto, entre outros. O que mais me atrai em autoajuda é a quebra de mitos ridículos que permeiam nossa sociedade. Como por exemplo o mito do talento (que é tema para outro artigo). Ainda, esse tipo de texto nos dá motivação, que, as vezes, é só o que precisamos para agir. Esses blogs, porém, mergulham demais em detalhes, tornando difícil a obtenção de uma visão geral sobre o assunto. Todos esses detalhes podem se resumir a uma coisa:

A vida não é sobre fins e sim sobre o percurso 
A vida não tem sentido. Não existe um grande baú de ouro no fim do arco-íris. A vida não tem objetivo porque a vida não é sobre o lugar que vamos, é sobre o percurso que tomamos. Bill Hicks disse como nós temos a incrível habilidade de que o que fazemos importa no fim, que estamos rumando para algum lugar, mas que no fim, a vida é só um percurso e que como tal, o que devemos fazer é aproveitá-la.

Se a vida é só um percurso, faz sentido ter ambições e sonhos? sim. Sonhos nos fazem querer levantar da cama de manhã. Mas não pendure-os na parede. Não saias dizendo a todos os teus amigos a toda hora.

Esqueça objetivos, pense nos meios
Planejar o futuro, criar múltiplos planos e viagens imaginárias, possíveis obras. Tudo isso é muito divertido e todo mundo o faz. O problema é que planejar não nos deixa nem um pouco mais perto de alcançar o objetivo. Planejar demais só nos deixa frustrados.

Vamos tomar perder peso como exemplo. Ficar sonhando como vai ser lindo caber em tal vestido não vai te fazer perder nem doze gramas. A opção é agir, mas mudanças de hábitos são peníveis a fazer. Disciplina é uma coisa que, cada vez mais, não vem do berço.

E que tal se em vez de mudar os hábitos repentinamente, mudar seus gostos. Gostar de comer de forma saudável ao invés de sofrer a cada refeição e dar escapadas nos fins de semana. Gostar de fazer exercícios, ter prazer do início ao fim com a sua prática. Seleciona habilidades importantes para alcançar o objetivo visado e gosta tanto de botá-las em prática que fica difícil não o fazer.

Só faze o que gostas
Parece contraintuitivo. Mas não é. Fazer coisas que tu não gostas só vai te fazer mal. Só vai te fazer desistir dos teus sonhos. É importante sempre se divertir com o que estás fazendo. Por exemplo, se queres aprender inglês. Compra ou baixa livros que te interessam em inglês. Mesmo se forem avançados. No início será um pouco difícil. Mas eu garanto que se o assunto te interessa, as palavras vão fixar muito mais em tua mente. É um fato sobre nosso cérebro, só aprendemos coisas que nos importam.

Eu sei que é muito mais fácil dito que feito. Mas vou re-enfatizar que mudar um hábito é a coisa mais difícil que existe. Para fazê-lo, começa pensando pequeno. Faze uma mudança na sua rotina por quinzena ou por mês. Começa um blog ou compra um diário onde tu podes registrar teu progresso.

Registre o progresso
Quando em busca de um objetivo, é muito fácil esquecer o quanto nós avançamos. A maioria dos objetivos não são dicotômicos. No aprendizado de uma língua por exemplo, não há um momento x onde se passa de uma pessoa que não fala nada para um falante fluente, há todo um contínuo.

Tu que lês hoje um livro de dezenas de páginas com facilidade, um dia sofreu para ler uma história em quadrinhos. É muito fácil esquecer o quanto alcançamos se nos perdermos em pensamentos do que poderíamos ser (se ficarmos presos ao objetivos). Esqueça o quanto falta para alcançar fluência, ou para caber no vestido. Lembre o quantos quilos já perdeste, ou como não sabias nem dizer "bom dia" há alguns meses.

Algo que muitos objetivos têm em comum é que notamos um progresso muito grande no início, mas com o passar do tempo atingimos um plateau, isto é, paramos de notar o progresso, mesmo avançando. Isso é especialmente forte no aprendizado de línguas. Em um ou dois meses de estudo notamos uma grande diferença no conhecimento. Passado um ano, ao começarmos a tentar ler coisas mais avançadas notamos mais e mais buracos em nosso entendimento. Isso leva a uma frustração muito grande. Só podemos ver o quanto falta para saber e não o quanto já avançamos: é por isso que é importante manter um registro de progresso.

Colhendo os frutos
Vai chegar um ponto em que estarás satisfeito com o progresso que fizeste. Agora é importante mostrar-se. Não exibir-se, mas utilizar as habilidades adquiridas constantemente. Aproveitar toda a oportunidade para melhorar ainda mais.O mundo é tua ostra!

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