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22 de dezembro de 2017

Velho amigo

Minha vida não ia muito bem. Eu estava caminhando pela beira da rua porque a calçada estava em obras. Um conjunto de cones ligados por um fita listrada amarela e preta alertava aos carros que aquele pequeno pedaço de asfalto era destinada aos pedestres. Me perdia em pensamentos, o artigo que eu tinha que terminar, aquela vez que eu deixei alguém que eu gostava na mão, o livro que eu esqueci de devolver em 2009.

Para aquele horário o transito estava calmo demais. O sol estava a pino e eu estava com muito calor. Essa confluência de eventos fazia o tempo passar mais rápido do que deveria. Minha visão se fixou na figura que vinha caminhando em direção oposta a minha. Meu olhar rapidamente se desviou como por reflexo de não ser pego encarando estranhos. Mas meu cérebro logo me avisou que aquele que vinha não era qualquer um. Meu velho amigo Ricardo estava mais gordo e mais careca, mas não tão dificilmente reconhecível. Fixei agora meu olhar nele esperando que ele também tomasse o conhecimento mudo da minha existência. Um sorriso rasgou seu rosto antes taciturno e seus olhos dilataram demonstrando o reconhecimento esperado da nossa antiga amizade.

Não nos víamos haviam anos, mas ainda éramos amigos no Facebook e trocávamos mensagens nos aniversários e quando algum de nós era bem sucedido em alguma empreitada. Não trocávamos palavras analógica ou digitalmente havia muito tempo, mesmo assim eu ainda o sentia presente na minha vida, como se ele tivesse ido passar um mês no litoral e já tivesse voltado.

Nos distanciamos gradualmente. Falando cada vez menos através dos anos. Era como se houvesse uma parte do meu cérebro destinada ao meu amigo e aos poucos ela tivesse encolhido até o momento em que ela se tornou apenas um espaço em uma instante.

A emoção de revê-lo foi grande. Gritamos no início, demos risada como se tivéssemos recuperado algo muito importante que quase foi jogado fora. Fizemos as perguntas básicas para saber onde e como estávamos na vida. Aos poucos o volume da das vozes foi reduzindo e mais calmamente podemos conversar normalmente. Fizemos piadas e demos risada. Fizemos planos de nos revermos ou de reunir a galera. Lembramos dos amigos em comum que haviam casado, tido filhos ou morrido.

Eu fiz uma piada e meu amigo fechou a cara. Algo estava errado. Não estávamos mais conectados. Realmente tínhamos virado apenas lembrança. Provavelmente a galera nunca mais ia ser reunida.

Voltei para calçada menos triste. Comecei a pensar no artigo que eu tinha que terminar, aquela vez que eu deixei alguém que eu gostava na mão, o livro que eu esqueci de devolver em 2009.

21 de fevereiro de 2015

Vemödalen

Marcos temia já ter visto e ouvido tudo.

Nunca achava graça de nada. Todas as frases que escutava traziam consigo o mesmo som. Aquele sentimento de Déjà-vu. Não conseguia ter uma conversa sincera com ninguém. Parecia que tudo que lhe diziam já lhe tinha sido dito, senão a ele, a alguém, em algum momento.

Há anos não lia livros, não via filmes. Não achava graça de comédias: as piadas pareciam todas velhas. Um dia simplesmente desistiu de ler qualquer coisa.

Seus relacionamentos duravam sempre algumas semanas. Uma vez, em um segundo encontro, dormiu na mesa do bar. Não tinha tampouco amigos. Ninguém lhe entendia e não existem muitas ocasiões sociais para alguém que não gosta de conversar e não tem interesses. Ele até tentava fingir que se interessava por aquilo que os outros diziam, mas transparecia em suas atitudes o quanto tudo lhe causava malaise.

Já tinha tentado de tudo. Tentou viajar. Tentou fazer yôga, curso de teatro, de dança, de mandarim. Tentou ir na igreja, pular de paraquedas, até aeromodelismo. Tentou ir em todos os restaurantes, boates e eventos. Não adiantava, nada era novidade. 

E por não ser novidade não lhe dava prazer. O sentimento de repetição se tornou um tormento tão grande que Marcos não sentia contentamento em fazer nada. Tem coisas que a gente dá como garantido. Por mais que a vida seja sofrida, temos consolo na esperança. Esperança era algo que Marcos vinha lentamente perdendo.

Não vivia, suportava a vida. Ia da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Parecia que era feito de um material diferente das outras pessoas. Invejava os colegas de trabalho que conversavam e riam no intervalo em frente a cafeteira. Mesmo assim prosseguia. Ainda existia uma pequena esperança de que em algum lugar iria encontrar algo novo, algo que lhe atiçasse a curiosidade e o fizesse viver novamente.

* * *

Um dia, uma velha senhora que estava a sua frente resolveu pagar suas compras usando somente moedas. Irritado com a demora, Marcos desabafa com a pessoa na sua frente que ele achava que pessoas idosas deveriam ter um horário especial para comprar. Quem se vira é uma jovem morena de óculos que lhe diz:

– Eu não tenho pressa.

Seu nome era Marcela. Aquelas palavras que não tinha nada de novo, para Marcos soaram como a última profecia. Um sentimento de confusão lhe invadiu. Não sabia o que dizer. A acompanhou até sua casa (que era do lado contrário à sua). Tiveram naqueles quinze minutos de caminhada a melhor conversa que Marcos já teve. Saboreava cada palavra que Marcela dizia. Parecia que tinha achado um oásis depois de anos no deserto. Um sentimento que lhe era raro lhe preenchia: Curiosidade. Queria saber tudo sobre aquela mulher. Onde ela estudou? que tipo de sorvete ela gostava? como foi a sua infância? Ele queria só absorver tudo o que pudesse, já queria pular para o futuro e entender tudo sobre ela.

Agora tudo era diferente. Assistiu um filme do Adam Sandler e morreu de rir. Achou McDonalds delicioso. Chorou lendo A Culpa é das Estrelas. Mas o que tinha acontecido? não era o mundo que tinha mudado, era Marcos. Nada era novo, tudo estava nas mesmas coordenadas de sempre, mas marcos havia rotacionado: via tudo sob um novo ângulo.

Não era como se Marcela fosse alguém especial. Não tinha nada de surpreendente. Era bonita, mas não de derrubar queixos. Era inteligente, mas não era um gênio. Se vestia modestamente, nada de super fashion, mas tampouco roupas desajustadas.

E aquela velha insatisfação que Marcos sentia agora era só uma memória distante. Via Marcela todo dia, e eles faziam as coisas mais comuns e eram felizes.

No aniversário de um ano daquele dia no supermercado, Marcos queria escrever uma mensagem à Marcela lhe agradecendo pela mudança que ela tinha causado em sua vida. A carta ficou cheia de lugares comuns, mas Marcos não se importou porque ela era Original. No grande esquema das coisas ela era original. Mesmo que outros já tivessem escrito uma carta igual ela era original. Originalidade não é uma função.

11 de fevereiro de 2015

Amor, Sexo e Arte.



Em um episódio de "O Fantástico Mundo de Bob", Bob não sabe se o que sente é amor ou são gases. A lição importante do desenho é que o amor é algo individual e fenomenal. É um sentimento. Não há como saber se todas as pessoas que já amaram sentiram a mesma coisa. Nem tão pouco se o conceito "amor" desaparecesse, as próximas gerações iriam recriá-lo.

O sexo, diferente do amor, pode ser verificado. Ainda que a definição e as práticas mudem ligeiramente através das gerações, é possível delinear as fronteiras do que é e o que não é sexo. Portanto o sexo é algo de concreto, de real. Existem estudos científicos ligando certas repostas químicas às pessoas que se dizem apaixonadas. A falha está no "se dizem apaixonadas". Bob pensava amar, na verdade tinha gases.

Ninguém nunca presenciou de fato o amor. Enquanto que o sexo sim já foi presenciado. Aliás, as vezes quando presenciado gera desconforto, separação ou até morte. Alguns dizem que o sexo é evidência do amor. Sexo é tão evidência do amor quando da existência de anjos da guarda.

O maior problema do amor é a sua centralidade na Experiência Humana. O Amor hoje significa tanta coisa, que não significa mais nada. Situação similar ao ocorrido com a Arte. Para os gregos antigos a arte tinha função puramente estética. Na idade média, a arte se tornou uma forma de se ligar com o divino. Na idade moderna se tornou sinal de status. E lentamente na idade contemporânea, se tornou uma forma de expressão, de transcendência da realidade objetiva. Duchamp, em 1917, submeteu um mictório ao salão de arte. Agora um objeto quotidiano era arte. Agora tudo era arte. Arte performática, arte de rua, arquitetura, programação, generativa, experimental.

O que separava o mictório de Duchamp dos milhares que decoram nossos banheiros? contexto. Da mesma forma o sexo, que é quotidiano, contextualmente se transfigura em amor. Mas assim como alguns não classificam os mictórios, ou arte performática, como arte. Alguns podem dizer que amor e sexo estão sempre fundamentalmente separados, enquanto outros dizem que alguns mictórios são arte e outros não.

O sexo é um ato físico, necessário de certa forma ao bom funcionamento de um ser humano. Da mesma forma o mictório serve a uma necessidade fisiológica.

Talvez não exista amor, nem arte, mas sexo.

10 de fevereiro de 2015

24 dias de meditação


Você já imaginou como seria ver a sua vida por uma tela? Imagine ver cada instante do seu dia de hoje, minuto a minuto. Seria uma experiência excruciante, principalmente para os mais ansiosos. Há um par de anos atrás, eu coloquei minha webcam para tirar uma foto por minuto. Ver o seu rosto olhando debilmente para a tela de um computador é uma visão não muito agradável. Mas a cada minuto eu estava totalmente inconsciente da minha situação, totalmente concentrado em seja lá o que eu estivesse vendo. Em qualquer outro lugar, menos ali. Observar você mesmo em terceira pessoa tem um poder transformativo.

Vá para o centro da cidade e observe o rosto das pessoas. A maioria está presente só em corpo. Seus olhos mirados para frente mas suas mentes já onde vão chegar, ou talvez para aonde vão várias horas depois. Pouco pensamento vai em cada ação a se tomar, o que fazer a seguir. Grande parte do nosso dia se passa dessa maneira, fazemos as coisas no automático.

Passamos um terço da nossa vida dormindo, o que é uma necessidade do corpo. Mas e nos outros dois terços? estamos realmente acordados? quantas vezes você já deixou as chaves de casa em um lugar aleatório e depois não lembrava onde as tinha posto? é isso que acontece quando se vive dormindo.

Há 24 dias eu tenho meditado uma vez por dia. Para quem nunca tentou, ficar sentado, sem pensar em nada, dez ou vinte minutos é muito mais difícil do que parece. Nosso cérebro tenta ao máximo fazer tudo por hábito. Se você dirige, pense na primeira vez que dirigiu. Cada passo era feito conscientemente, exigindo alta concentração para fazer as coisas mais simples como mudar de marcha ou checar o retrovisor. Aos poucos essas pequenas ações foram sendo incorporadas à sua "caixa de ferramentas" e você começava a fazê-las sem nem mesmo pensar. Hábitos se incorporam as atividades automáticas do dia-a-dia. Chegar em casa e ligar a televisão por exemplo. Ou abrir o e-mail quando outras atividades exigem sua atenção.

Com o tempo, os hábitos se tornam parte de nós. Aos poucos é difícil nos dissociarmos do que fazemos todos os dias. O homem que acorda cedo todo dia e lê o jornal acredita que ler o jornal faz parte de quem ele é. Mas o que aconteceria se amanhã o homem acordasse e fosse correr no parque? ele obviamente não viraria outra pessoa, ainda seria o mesmo homem. Da mesma forma, criamos o hábito de nos perdermos em pensamento.

Faça o seguinte: da próxima vez que estiver se deslocando para algum lugar comece a observar as coisas que você pensa. Observe o quão repetitivo e exaustivo é o pensamento. Talvez você pense em algo que tem que fazer quando chegar em casa e depois de algo errado que fez no trabalho ontem. Depois você vai pensar novamente nessa coisa que tem que fazer assim que chegar em casa, então vai lembrar de algo de errado que fez semana passada. Daí vai pensar em como está se sentindo desconfortável e como vai ser bom chegar onde quer chegar. Logo vai começar a pensar de novo que não pode esquecer de fazer aquela coisa no momento que chegar em casa. E vai lembrar de algo errado que fez em 2003.

Da mesma forma que seria excruciante ver o seu dia em uma tela, seria extremamente monótono ouvir tudo que você pensa lido em voz alta. A pura repetição já o faria ficar entediado, mas mais que isso, o discurso, além de não interessante, é ruim. Quantos dos seus pensamentos lhe fazem sentir mal? mas esse que está lhe chamando de burro porque esqueceu da carteira em casa, esse é você não é? e não há como fugir de si mesmo.

Esse não é você.

Mas esse discurso interno é feito a tanto tempo que se torna um hábito. Tanto que é difícil de imaginar que essa voz que está na sua cabeça não é você. Que é um hábito. E que pode ser reduzida. Isso é só ruído. É possível controlar mais o seu próprio pensamento.

Sentar e meditar é um hábito. Eu comecei com dez minutos por dia e passei para quinze. Nesse tempo eu tento focar no momento, na respiração. Eu não luto com os pensamentos, eu os deixo sair como entraram. Eu não me identifico com os pensamentos. Eu não me chamo de distraído quando perco a atenção. O importante é só sentar e meditar.

Ainda é cedo para dizer, mas eu estou mais feliz. Mas você não precisa acreditar em mim. Você não precisa nem mesmo acreditar que funciona. Basta sentar e não pensar em nada. Meditação é um treino para todo o tempo em que você não está meditando. 

2 de dezembro de 2014

O Doce Veneno do Caranguejo

Era aquele dia cinzento e ventoso em que só se vai na praia porque já se cansou da mesa de baralho. Roger estava sentado sobre suas havaianas contemplando comprar um milho verde: decidiu caminhar.

Quanto mais caminhava, mais feias eram as praias e mais o vento soprava. Começou a pensar em todo o trabalho que teria para fazer quando voltasse para capital: só a sua caixa de entrada demoraria duas manhãs para ser processada. Lembrou do porteiro do prédio em que trabalhava que sempre comentava com ele sobre futebol. Roger não entendia nada de futebol, no colégio só jogava vôlei e seus pais só viam ginástica artística na TV. Contemplava agora se demitir: decidiu comprar o milho.

Ao chegar no quiosque se deparou com Laura. Não a via há um ano. Saíram algumas vezes e de vez em quando trocavam mensagens no WhatsApp. Só depois de alguns minutos se atualizando um da vida do outro que Roger percebeu algo curioso com a menina: suas pernas eram as de um caranguejo.

Confuso no início, não sabia se trazia aquele fato a tona ou não. Sorte que quem estava falando era ela; isso lhe deu tempo de pensar. Será que era uma doença? se fosse seria chato comentar. Mas também como ficar calado? tal transformação não ocorre todo dia. Resolveu dar uma indireta:

-- E o que aconteceu contigo?

Ela entendeu. Disse que era "por causa do namorado" e complementou com "sabe como é". Depois apertou seus lábios formando uma expressão facial que Roger não sabia como interpretar.

Como assim por causa do namorado? será que ela estava namorando um caranguejo? e que a estava obrigando a se transformar lentamente em sua espécie? ou será que o namorado tinha um fetiche por crustáceos? nunca tinha ouvido nada parecido. Além do mais, Laura, formada em direito, nunca iria se sujeitar desse jeito a um cara qualquer com um fetiche bizarro.

O milho de Laura ficou pronto e ela foi embora em direção as dunas de areia. Roger ficou ali pensando se pediria manteiga ou só sal.

Roger ficou pensando que nenhuma mulher fez nada assim por ele. Nem mesmo um corte de cabelo. Porque será que alguns tinham sucesso no amor enquanto ele só se dava mal? a verdade é que ele também não faria nada assim por ninguém. Nem passava por sua cabeça decair na escala evolucionária só para satisfazer alguém que não conhecia nem mesmo há um ano. Começou a achar Laura volúvel.

Naquela noite os dois pensaram um no outro. Roger em seu colchão na casa da praia do seu colega de trabalho e Laura nas dunas de areia do Quintão.

4 de outubro de 2014

A Ana-mariazação da Sociedade


Dizem que Monalisa tinha sobrancelhas e que era séria. Eu a imagino através dos séculos, vendo suas cores desaparecem, suas sobrancelhas sumirem; imagino-a vendo tudo isso e sorrindo. O que fazer? talvez o desaparecimento da beleza também seja belo. 

É o destino da mulher se conscientizar de sua beleza já em seu declínio. A beleza da mulher é um poema escrito na areia. Eu imagino o pavor da, antes bela, mulher que se olha no espelho e vê sua mãe. Aquilo que lhe dá razão de existir agora desaparece em sua frente, sem que nada possa ser feito.

Com sorte o ser humano é o ser do hábito, e dado o longo tempo para se acostumar com o novo estado-das-coisas, a mulher se acostumava com a beleza perdida. Como Monalisa, ela sorria. Mas criamos maquiagens e as revistas femininas: não mais era possível se contentar. A mulher não tinha mais o direito de ficar velha. É a ana-mariazação da sociedade.

Consumismo. Quanto mais passam-se os anos, mais maquiagens, mais Cosmopolitans. Até o momento súbito da cajadada de Cronos. 

Beleza é poder. Ninguém obriga ninguém a usar maquiagem (talvez o dono do circo obrigue o palhaço, mas esse tem o direito de virar trapezista ou limpar a jaula do elefante). Mas não usar significa a perda do poder. Alguns apontam a obrigatoriedade da maquiagem como indício do machismo na sociedade, mas pelo menos a mulher tem a alternativa: tudo que estende a aparência de juventude do homem é ridicularizado.

A tecnologia estende nossas capacidades, podemos pular mais alto, viajar mais rápido e estender a juventude até estágios ana-mariescos. Mas ainda não estendemos nossas emoções para lidar com essas novas capacidades. Estamos fadados ao momento fatídico: olhar-se no espelho e ver Louro José.

8 de março de 2014

Promoção Exclusiva para o Dia Internacional da Mulher

1. Consumismo
O consumismo abocanha tudo. Nada escapa.

Mulheres morreram queimadas numa fábrica? Que tal esse desconto nesse forno? Que tal comprar flores ou bombons para suas colegas de trabalho? "Tu acredita que ele não me deu nada no dia internacional da mulher?".

No momento em que um movimento é comoditizado ele perde seu valor. Se tu estás comprando uma camisa de "eu sou feminista", então tu és só mais um funcionário; e poderia pelo menos ser pago por isso.

O dia dos namorados pelo menos é sincero.

2. Ironia
Como reclamar do sistema de dentro do sistema?

Minha própria linguagem é a linguagem do consumismo. Minha indignação tem cotação no mercado. O paradoxo é um paradoxo.

Comprar é a última forma de protesto. Ou não comprar, no caso. Se tu não concordas com a opinião do dono do KFC, então simplesmente não compres dele. A revolução no capitalismo é tipo o voto, não serve para nada.

3. Esperança
Não há mais quase nada a se fazer sem consumir. Não há bancos no centro da cidade. Eu e meus amigos somos interrompidos em nossa conversa no parque. É uma moça simpática vendendo trufas.

"Tudo bem, ela só está tentando pagar a prestação do carro."

É para isso que as mulheres foram queimadas. Para que tu comprasses o forno em dez suaves prestações.

15 de agosto de 2013

Todos os teus gostos foram escolhidos para ti


"Eu gosto de cinema"
"Eu adoro uma cervejinha no final do expediente"
"Eu odeio meu cabelo ruim, queria tanto ter cabelo liso"
"Eu odeio Matemática!"

O que seria do azul se todo mundo gostasse só do roxo? Uns gostam de azul, outros de roxo. No final tudo é justo. Mas será que tu realmente gostas de novela? ou de refrigerante com gelo e limão?

Tudo que vemos nos influencia. O comercial de televisão, a marca de cigarros que o protagonista fuma no último filme do Almodôvar, aquela imagem engraçada que aparece no feed do Facebook.

Outras pessoas nos influenciam. Se tu não vês Zorra Total, tua tia vê. Se tu não lês a Veja, teu professor lê. Talvez se não fosse aquele comentário que tu ouviste sem querer na fila do banco, hoje tu não estarias morando onde tu moras, ou usando a roupa que estas usando.

Claro que não é tudo preto e branco, temos nossa genética, podemos dizer até que temos escolha. Mas pensa que aquilo que te é mais importante, aquilo que tu usas para te definir, pode não ser mais do que um acidente, ou pior ainda: fruto de uma trama maligna das grandes corporações. Que abusaram de seu grande capital para transformar teu ambiente: pagar o comercial de televisão, contratar formadores de opinião, patrocinar o artista. Tudo isso para te fazer gostar de Fanta uva com gelo.

Corporação maligna ou não, teus gostos foram incutidos pelos outros, seja lá quem for. Tu gostas de carro, ou daquela música das Spice Girls, ou de ir na academia, tudo porque alguém te influenciou.

Tu tens que ter faculdade, ou tu quer ter o carro, a casa, a tatuagem, a bolsa, o óculos, não por que tu precisas, ou porque isso realmente é algo que vai enriquecer a tua vida, mas simplesmente porque assim é. Ter uma casa é uma baita investimento, ter o carro vai me permitir ir onde eu quero. Eu tenho dinheiro sobrando, então posso comprar essa bolsa. Eu não sou bom desenhista, meus desenhos são horríveis. Tudo isso parece vir do fundo da tua alma, mas é simples eco da Ana Maria Braga, do Steve Jobs, do Jorge Luis Borges.

É impossível saber se gostamos realmente de alguma coisa ou se essa coisa nos foi incutida. É bom para a sociedade que tu compres teu carrinho, tuas roupas de grife, que tu te drogues, que tu engordes. Há um claro incentivo para que estes gostos estejam sendo empurrados em nossas goelas.

Não uses teus gostos como desculpa, eles não são teus.

12 de maio de 2013

Cristina, a garota que não se importa com o que os outros pensam - Parte I




Cristina, ela gostava de dizer, não se importava com o que outros pensam. Não sabia, por certo, quando deixou de se importar. Sabia, contudo, que não era intrínseco o seu desprezo pelas opiniões alheias.

Era uma menina tímida e estudiosa no colégio. Gostava muito de ler e frequentemente matava as aulas de educação física para ler sozinha, escondida. Muitas meninas se traumatizam por se desenvolverem mais tarde que suas pares. Cristina não se sentia assim, amadurecia lentamente, tomando seu tempo. Apesar de um pouco esquisita como toda adolescente, já mostrava grande beleza descuidada.

De fato, não dava bola para aparência. Talvez os hormônios não tivessem o efeito necessário em seu sistema, mas naquele ponto não demonstrava grande interesse pelo sexo oposto. Um pouco deslocada nos âmbitos físico e de interesses, Cristina não formou grandes amizades no ensino médio. Não se importava muito com solidão e até sentia prazer em experienciar um completo silêncio e desligamento do resto do mundo. Algo que não é comum hoje em dia.

Tudo mudou quando o mundo a notou bela. A corrente de atenção despertada pela recém desperta beleza, somado com o ar de mistério e de pureza que lhe traziam fama na escola, lhe confundiu e atordoou. Teve que aprender na marra o jogo social e as regras mudas que regem a hierarquia feminina. Como toda jovem bela, ignorava os benefícios e os privilégios que a beleza lhe trazia.

O final da adolescência é o momento em que definimos nosso caráter e nossos valores. Meio que atirada no meio de um transporte em movimento, ela teve que improvisar uma personalidade. Cristina definiu-se então pelo seu diferencial em relação a seus pares. Todo mundo se acha especial. Ela se definiu completamente como alguém sem igual. Incompreendida, Cristina não se identificava com ninguém que conhecia. Via algumas características suas nas heroínas dos livros ou filmes que assistia. Mas ainda assim achava que não pertencia ao nosso mundo.

Não via televisão e se orgulhava disso. Deu desejo de ser diferente controlava sua vida. Se alguém gostasse de algo, seria impossível para ela gostar daquela coisa. Assim seus gostos se reduziam a peças obscuras e "bandas que ninguém conhece". Seu modo de se vestir e pensar começaram a ser a pura antítese do que estava na moda. Assim se tornou uma mera escrava da contrariedade.

Falava frases polêmicas somente para polemizar. Agia de maneira irresponsável somente para se definir. Beijava e se deitava porque podia. Seu maior medo era que descobrissem como sua personalidade era rasa. Que embaixo da roupa que beirava o ridículo, existia só uma menina tímida que não gostava de jogar vôlei.

Ela não era burra, se deu conta de seu distúrbio. Porém era tarde demais. O que a levou a um novo estado de consciência: sabia que estava presa na fuga do cliché. A paradoxalidade da sua situação era tão confusa quanto tudo que é trivial parece a uma adolescente. Era o pior sentimento de todos, o de se sentir aprisionada depois se sentir infinitamente livre. Sentia que aqueles que nasciam no cativeiro acabavam por se acostumar. Mas para o pássaro que pensava que tinha voado mais alto do que todos os outros era o pior do sete infernos acabar em uma gaiola.

19 de fevereiro de 2013

Distúrbio Cético


Todo mundo tem que acreditar em alguma coisa.

Ser cético não é normal. Algum pastor psicologo e dono de rede de televisão poderia classificá-lo como um distúrbio comportamental. Ceticismo é marcado por uma marcada condescendência para com leitores de horóscopo, frequentadores de missa e pessoas que adicionam consoantes em seus nomes para equilibrar o profissional e o emocional. Céticos são delirantes, acreditam que somente se as outras pessoas aprendessem um ou outro fato sobre a realidade -- essa tão preciosa realidade --, então todo mundo seria cético. O cético tende a fazer comentários velados, as vezes somente para eles mesmos. Tendem a sorrir afetadamente e a rirem sozinhos.


Tem traços bipolares. Sente-se as vezes superior, que tem todos os mistérios entre o céu e a terra entendidos e as vezes deprimido, com o sentimento que nunca vai entender a humanidade, que está sozinho no mundo. Se sente só mesmo na companhia de outros.


Ao cético falta empatia. Passa noites acordado se perguntando porque alguém dá dez por cento de tudo que tem para uma instituição corrupta. Por que pessoas se mutilam e a outros em nome da algo não razoável. Por que pessoas pagam por frascos de água e álcool sem nenhum traço do antígeno e sem nenhum estudo que comprove sua eficácia.

"Estudos" são o único deus do cético. Começa várias frases com "estudos comprovam". Em geral não compreende a definição de ciência. A bíblia do cético não é canônica, ele guarda na memória o resultado resumido (e mal interpretado) de vários artigos científicos que leu em revistas como Veja, Época, Carta Capital. Nunca leu propriamente os artigos que cita. Compartilha imagens astronômicas do I F*ing love science. Tem decoradas várias piadinhas prontas sobre religião.

E o tratamento? infelizmente a ciência ainda não encontrou a cura para tal distúrbio. Drogas podem atenuar seu efeito: viajar para a Amazônia e ver a Virgem Maria com certeza pode balançar suas convicções. Mais conhecimento também é um tratamento. Quanto mais a gente sabe, mais dúvidas temos, mas incertezas acumulamos.

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13 de janeiro de 2013

Três Contos Curtos Sobre o Amor e os Coletivos


1. Impressões
As ranhuras das impressões digitais de Lucas tinham a quase probabilisticamente impossível estrutura que encaixava perfeitamente com as de Mariana. Seus dedos se tocaram uma vez quando Mariana dava o troco para Lucas. Na hora tiveram uma sensação que nenhum dos dois pôde descrever. Lucas desceu com pressa na próxima parada. Nunca mais se tocaram.

2. Paz
Era um dia muito quente, hora do rush. O ônibus estava lotado e o transito, parado. Aparentemente um acidente tinha acontecido há algumas centenas de metros a frente. Alguns iam para o trabalho, a maioria voltava para casa. Com a impaciência esperada depois de um dia de trabalho estressante, quente e longo, os passageiros mostravam visivelmente sinais de cansaço. Muita gente de pé, apertada, muita gente suada. O ar da rua e o do ônibus pareciam se digladiar, assim ficavam cada um em seu espaço.

Em uma das cadeiras estava sentado um homem bem vestido e alto. Cabelos cheios de gel, penteados para trás e a barba bem feita. Seu terno parecia ter sido cortado sob medida. Seus sapatos brilhavam mais que o asfalto escaldante lá de fora. Gotas de suor escorriam de sua testa e de suas mãos.

Em seu colo havia uma pasta, dessas que se põe dinheiro em filmes. O homem abriu a pasta lentamente, tirando uma carteira de cigarros. Retirou um e o pôs na boca. O clima no ar repentinamente se transformou. Atônitos, os passageiros pareciam estar vendo uma cena do apocalipse. Talvez um assalto teria causado menos consternação.

O homem de terno então acendeu o cigarro. Comentários começaram a ser ouvidos no, até então silencioso, ônibus. "O senhor não pode fumar aqui dentro" -- um homem corpulento que estava a seu lado protestou. A senhora religiosa do outro lado do ônibus comentou que aquele homem só podia estar com algum encosto. Uma jovem alta e magra tapou o nariz, preocupada com os perigos de ser um fumante passivo.

O cobrador se levantou consternado, mandando o engravatado apagar aquele cigarro, que aquilo incomodava os outros passageiros. Que era proibido. Que ele ira ser autuado.

Os jovens no fundo do ônibus começaram a gritar. Uma velha, que levava um terço na bolsa, começou a rezar. O homem gordo começou a ficar vermelho.

O motorista então se irrita e abre a porta. Mesmo que o ônibus esteja no meio do engarrafamento, e que ele possa ser multado por isso, grita que se o homem não apagar aquele cigarro, terá que sair do ônibus.

O homem de terno calmamente fecha sua pasta, levanta-se e desce do coletivo. Caminha entre os carros tranquilamente, apertando seus olhos e olhando para o céu.

Quarenta e cinco minutos de caminhada, na sublime paz dos homens de bem.

3. A Marca Feia
Ainda que dissesse que já tinha o esquecido -- e que até mesmo o tenha postado no Facebook --, sempre que passava por aquela rua, lembrava do dia em que ali sentaram juntos na sarjeta. 

Ela queria que houvesse um corretivo líquido para o cérebro. Mas as vezes o risco é melhor do que a marca feia do Errorex. Talvez seja melhor um caderno sujo que um vazio.

10 de janeiro de 2013

O inferno são os outros


Todo mundo filosofa. Seja na mesa do bar, ou no banco do ônibus. Filosofia pode ser feita em grupos de dez, ou sozinho no elevador. Não precisa ter diploma, nem certificado. A maioria das pessoas filosofa e nem percebe. Também pode ser feito em qualquer idade. Eu comecei a filosofar quando tinha cinco anos. A primeira questão que ocupava minha mente ainda não totalmente desenvolvida era:
Por que eu sou eu e não outro? como seria ser outro?
A pouco tempo eu aprendi que as crianças bem novas não tem a noção de que seu cérebro é separado dos outros. A criança não entende que o que ela sabe nem todos sabem. Vi um experimento no qual uma menina é deixada pela mãe sozinha em uma sala. Nesse meio tempo ela esconde uma boneca em uma gaveta. Quando sua mãe volta, a menina fica surpresa de descobrir que a mãe não sabe onde está a boneca. Como ela não sabe onde está a boneca? está dentro da gaveta. Para a menina, tudo que ela sabe, a mãe também sabe.

Lá pelos quatro anos de idade, finalmente começamos a entender que existem outros. Começamos a criar a "teoria da mente". Modelamos o comportamento de outras pessoas tendo em vista que não têm os mesmos gostos e conhecimentos que os nossos.

Porém ainda fica a curiosidade de saber como é ser outra pessoa. Talvez essa curiosidade ajude na hora de modelar o comportamento dos outros. Por isso biografias são tão populares. Queríamos estar na pele de outrem, saber como é sentir outras experiências, outra realidade.

Reality shows são populares também por esse motivo. Somos voyeurs naturais, queremos saber os verdadeiros motivos, a verdadeira personalidade de todos.

E enquanto criança, sempre me imaginava como outro. Imaginava acordar em outra cama, estar em outro uniforme. O que influenciou profundamente a maneira como eu vejo o mundo. Tenho uma dificuldade muito grande de apontar culpados, de condenar.

"Quero ver se fosse com a tua filha". Para mim as respostas não são simples, não acredito no bem e no mal. No Certo e no Errado (com letras maiúsculas). Sempre existe uma situação agravante, um desbalanceamento químico, uma coincidência indesejada.

E isso se estende para nós mesmos: olhamos para o passado e nos julgamos. Somos os piores juízes e executores da nossa própria sorte. Mesmo que tenhamos mais conhecimento do que qualquer um para fazer tal julgamento, somos duríssimos na pena.

Algo muito mais válido que Moralidade, que é fossilizada e morta, é compaixão. Eu prefiro mil vezes alguém que se põe no lugar do outro, do que alguém com aquele forte código de honra cravado em pedra. E teríamos uma sociedade muito mais feliz se antes de condenarmos, tentarmos entender o nosso amigo ser humano. E mais que tudo: tentarmos entendermos nós mesmos. Conhece-te a ti mesmo.

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31 de dezembro de 2012

Sonhar tem custo



Acaba o ano e o assunto preferido é o ano que vem. Quais sonhos vão virar realidade esse ano?

O sonho do Pedrinho era ser jogador de futebol. Via todas as partidas da seleção e de seu time do coração. Tinha o uniforme, as meias, as chuteiras. Sabia o nome de todos os jogadores e quantos gols fizeram no ano passado. Usava o corte de cabelo do artilheiro, quem decorava as paredes de seu quarto.

Sempre que fechava os olhos, se via em pleno Maracanã. Ouvindo os gritos da torcida, bombas e fogos. Porém, sonhos era tudo que tinha, Pedrinho não tinha movimento nas pernas, suas alucinações não passariam disso.

Quantos sonhos viram realidade? quantos sonhos fazem sentido? Sonhar tem custo sim. Cada vez que empurravam a cadeira de rodas de pedrinho, seu coração diminuía. E qual é a alternativa? Será que Pedrinho seria mais feliz se sonhasse ser analista de sistemas ou radialista?

Vivemos mais de fantasia hoje do que em qualquer outra época da civilização. Pessoas vêem mais de quatro horas de televisão por dia. E a Televisão sobrevive de publicidade. A cada trinta minutos na poltrona, uma dúzia de sonhos são "vendidos" aos nobres telespectadores. Palavra mais apropriada seria empurrados goela a baixo.

E quantos desses sonhos são possíveis? muitos sonhos são um jogo de soma zero: só pode haver um campeão de boxe na categoria peso-pena. Isso significa que centenas de jovens de nariz quebrado vão acordar todos os dias às três da manhã, treinar o dia inteiro, comer a dieta estrita dos campeões, só para verem seus sonhos estraçalhados, como seus narizes, pelas mãos do campeão. 

De novo, qual é a alternativa? se todos fossemos inteiramente racionais, teríamos um mundo de banqueiros e advogados. A realização do sonho nos traz somente o prazer momentâneo da glória. É a busca que nos motiva. Quando Pedrinho fecha os olhos, ele é mais feliz que o artilheiro. Quando o peso-pena acorda, ele tem muitos motivos para levantar da cama, nenhum nariz quebrado vai impedi-lo de pisar no ringue. Esse é o drama humano, somos providos com muita ambição e poucas oportunidades. Realizamos objetivos só para criarmos mais, cada vez mais impossíveis.

Mas o drama previsível não enche o teatro. Vamos quebrar nossos narizes em 2013!

25 de novembro de 2012

Quem escreve este texto?


Não sou eu.

Meus dedos movem-se lentamente sobre o teclado a medida que palavras surgem na tela. Frases viram parágrafos, tentando imitar os impulsos elétricos abstraídos em ideias. Mas as ideias não são minhas.

De quem elas são então? de onde surgem? ideias têm existência física. Não são menos reais que pedras ou carros, ideias não poderiam existir se o mundo não existisse. Pedras são pedras na nossa interpretação, pois são abstraídas em ideias de pedras, e as próprias ideias de pedras existem na nossa consciência. De fato a ideia da pedra ultrapassa a consciência individual: a ideia da pedra é compartilhada entre todos os seres humanos ao ponto que dois indivíduos conseguem chegar a um consenso do que é uma pedra e o que não é.

O que eu estou tentando dizer é que a ideia da pedra é maior que a pedra, e, por si só, mais "real" que a pedra por alguma definição de real. A ideia da pedra "existe" mesmo que consideremos que somente coisas que possuem matéria existem, as ideias têm matéria, elas estão na nossa consciência, ou codificadas na natureza.

Se olharmos para a constituição dos seres humanos e das pedras, somos compostos majoritariamente por espaço vazio, pontuado por pequenos pontos de "matéria". Na verdade uma grande parte do que consideramos como coisas é informação. De fato, quando nos referimos a um individuo estamos falando muito mais de sua "informação" (lembranças, personalidade) do que de sua matéria (sua composição química e aparência). Imagina que teu amigo, Marcelo, sofreu queimaduras de terceiro grau em um acidente e perdeu as duas pernas e os dois braços. Ao visitá-lo no hospital, tu ainda o consideraria "Marcelo", mesmo que sua "matéria" tenha se modificado bastante. Vamos ainda mais longe, suponha que no futuro, a medicina crie um procedimento para transportar totalmente a configuração de um cérebro a outro. Se a informação contida no cérebro de Marcelo fosse transferido totalmente para outro corpo, tu identificarias esse novo corpo como "Marcelo", mesmo que nenhuma das moléculas desse novo corpo sejam as mesmas de Marcelo.

Logo, poderíamos dizer que pessoas e pedras são informações e o que nos faz únicos é a configuração de nosso cérebro, e não as moléculas que nos compõe.

Desse modo, as ideias não nascem no nosso cérebro, elas vagueiam, elas se transformam, passando de um cérebro a outro. Elas se codificam em obras de arte, gravações e livros. Elas são livres, livres como nós mesmos.

Apesar de não tomarem decisões, são livres da mesma forma como nos somos livres: devido à sua estrutura, elas imperativamente vão se transformar ou desaparecer. 

No budismo, não existe o "si mesmo", nós somos como uma porta que não leva a lugar nenhum, o vento passa pela porta, a porta bate em si mesmo, mas passar pela porta te leva ao mesmo lugar que tu estavas antes. Somos somente estruturas externas causadas por uma cadeia de causa e consequência. Não existe (de fato) um núcleo que define um indivíduo, mas existe a percepção desse núcleo, como informação.

Quem escreve esse texto? ele mesmo.

10 de novembro de 2012

Não existem bengalas


O guia ainda não foi escrito, e nem vai ser: a iniquidade do ímpio é a glória do outro.

Entre duas pessoas existe um abismo infinito. Por isso só ouvimos eco, não há o outro, só vazio. Só nós mesmos. O outro fala, as palavras chegam deformadas: as reconstruímos com nossos próprios verbos e preconceitos. Ninguém te entende? de fato.

Então nos vemos encurralados na Realidade: um abismo infinito em torno de nós mesmos, mas de onde podemos ver os outros. Seus crimes, seus sucessos. Nossos crimes são mais doces, seus crimes, amargos.

Daí vem a tragédia da vida: o abismo é invisível. Falamos baixinho, no ouvido, pensando que somos escutados. Ouvimos palavras doces, as cremos verdade. A verdade afunda no abismo, se perde nas nuances do significado.

Nos vemos rodeados por gente, mas nos sentimos sozinhos, ignorantes do abismo. 

É daí que nasce todo conflito: erros de transmissão.

Mas poderia ser de outra maneira? existe a língua franca sem ruído? sem perda? É a esperança da humanidade, é a suposição tácita da ciência, da religião. É o motivo pelo quão prosperam, e também sua miséria.

Caminhamos como cegos que acham que enxergam. Sofremos as consequências. Uns ainda se acham menos cegos que os outros: escrevem livros, olham de cima. Esses tem a maior queda: substituem ainda mais verbos nas mensagens que recebem. São ainda mais cegos.

Quem sabe do abismo, sabe que é cego. Porém não existem bengalas.

25 de setembro de 2012

Virgem


Todo dia ela acordava. Calçava os chinelos, ia ao banheiro. Bocejava. Se olhava no espelho, coçava a cabeça. Tomava banho, se vestia. Tomava café, olhava a janela. Tinha uma vista para uma bela parede com vários padrões interessantes formados pela infiltração.

Toda santa manhã ela fazia o mesmo. Fazia mais de um ano que não tinha um contato íntimo com outro ser humano. A verdade é que não tinha vontade. Não podia nem ouvir alguém falando ou principalmente rindo. Trabalhava com muitos papéis, não precisava ver quase ninguém. Podia ficar o dia todo na sua sala com suas paredes brancas e lisas. Tinha família no interior, mas não os via há meses.

Quando chegava em casa, à noite, não tinha muito o que fazer. Não tinha TV. Fazia castelos de cartas, jogava paciência, pensava. Começou a pensar que estava sozinha no mundo, que se ela morresse ali naquele apartamento, passariam meses até que descobrissem seu corpo, no meio de várias xícaras de chá, um jogo de paciência não acabado e uma pilha de roupas sujas. Só lavava uma xícara de chá quando não haviam mais xícaras, e ela tinha muitas xícaras.

Um dia, deitada no chão -- um de seus passa-tempos preferidos -- começou a pensar que deveria fazer algo para agitar um pouco a sua vida, viajar talvez. Quando era mais nova tinha o sonho de ser veterinária, mas acabou fazendo turismo. Não praticava.

Fazer algo exigia força de vontade, algo que ela não possuía. Deitada no chão frio, com a coluna bem reta, só pensava como era impossível mesmo lavar aquelas xícaras (com as quais ela tinha escrito "FOME" no meio da sala). Merda, era mesmo impossível se sentar no sofá. Ela sentia que mesmo seu corpo estava desistindo, que um dia desses o seu coração ia decidir parar de bater, já que o resto do corpo não ia se importar mesmo.

Há meses não sorria, sentia que seu rosto começara a se adaptar à nova situação. Um dia seu patrão fez uma pergunta que demorou mais de dez segundos para ser respondida. Seu trabalho começava a ser feito porcamente também. Não se importava se perdesse o emprego, não gostava de sair de casa mesmo. Tinha bastante dinheiro guardado, não gastava com nada.

Suas roupas estavam ficando gastas, seu cabelo já estava muito longo e mal cuidado. Começou a ter medo de sair de casa, medo que falassem com ela, começou a sair mais cedo para tomar o ônibus mais vazio. Um dia seu patrão lhe perguntou algo e ela não respondeu. Ele voltou a fazer a pergunta, agora mais alto. Nada.

O patrão caminhou até sua mesa, já claramente irritado. Pegou no seu braço e perguntou se ela não o tinha ouvido. Nesse momento ela enlouqueceu. Aquelas mãos gordas e suadas tocando seu braço pareciam queimá-lo. Uma onda de ódio pareceu se transferir da ponta dos dedos do patrão até a nuca daquela mulher. Abriu a boca e deu um grito mudo: não tinha mais voz, não sabia mais quem ela era. Saiu correndo de sua sala, deixando o patrão atônito e desorientado.

Correu no meio das ruas, sem direção, não lembrava onde morava. Batia em algumas pessoas (as ruas estavam lotadas), seu horror aumentava. Correu por uma hora e, sem saber como, estava em seu apartamento.

Olhou confusa, as paredes tinham mudado de cor, as xícaras tinham sumido do chão. Só o que estava igual era a pilha de roupas. Ela se atirou no meio das roupas, as abraçou como se fosse um bebê. Dormiu.

Deve ter dormindo por muitos dias. Mas finalmente se levantou triunfante do meio das roupas sujas, com uma energia que nunca teve antes. Olhou pela janela e a visão a fez se ajoelhar e chorar: a infiltração na parede tinha o forma do rosto da Virgem Maria.

16 de setembro de 2012

O casal ameba


O louvo-a-Deus tem sua cabeça comida durante a procriação. O macho da girafa bebe a urina da fêmea para verificar se ela está apta a procriar. A natureza é cheia dessas curiosas práticas. Nós humanos não somos diferentes, só que as nossas práticas são um pouco mais complexas. Mulheres passam horas se disfarçando arrumando, homens passam horas na academia. Nem vou comentar sobre os rituais de acasalamento, livros e mais livros foram escritos sobre tal.

Duas pessoas se conhecem. Sem seguir nenhum guia, suas químicas internas mudam. Um olhar, gestos, frases, uma sequência de causa e consequência controlada pela cultura e genética que dificilmente será compreendida totalmente toma efeito. Um telefonema na hora errada, uma frase com entonação incorreta, podem quebrar a cadeia. Mas algumas cadeias persistem.

Aos poucos a cadeia fica mais forte, fortalecida pelo hábito. Tudo fica menos bio e mais lógico. As regras agora são mais culturais que químicas. Expectativas são criadas, e quebradas, e mudadas. Aos poucos, uma entidade toma forma. Essa entidade, que não está nem nele nem nela, tem vida própria, os controla.

A entidade vai endurecendo, ficando mais forte contra o exterior. Dá origem a uma micro-cultura, semi-independente da Cultura global. Os indivíduos envolvidos, então, ficam cada vez menos conscientes dessa entidade. Aos poucos o hábito vai dominando, as expectativas crescem, as raízes entram cada vez mais fundo nas almas dos hospedeiros.

Então um dia os anti-corpos individualistas se manifestam. A vida acontece. O hospedeiro vê uma saída, de repente o contrato não está mais vantajoso. Então ele se desprende, ele se livra do parasita. Mas ele não morre sem deixar sequelas. As vezes mortais.

Outro olhar, outros gestos, outra sequência de causa e consequência, outro parasita. As defesas naturais agora, no entanto, são mais fortes, os benefícios e malefícios, portanto, mais fracos.

3 de setembro de 2012

Sozinho na multidão


O mundo é do indivíduo. O triunfo máximo da iluminação é o fim do coletivo, da tribo, do grupo. Vivemos, dizem, na época mais pacífica e próspera da história da humanidade. Porém cresce um problema endêmico e silencioso. Um que não altera índices, que não passa por métricas. O mundo moderno, dos números, da ciência, não enxerga o que não é taxa, o que não cabe na célula do Excel.

O homem é cada vez mais urbano, mais apertado em apartamentos pequenos, mais amassado em transportes públicos ou preso no tráfego; cada vez mais sozinho. E não é coincidência: a solidão é propagada devido a seu subproduto: o consumismo.

O homem só só consome. Quando entre amigos, é feliz, é criativo, é ativo. Quando sozinho é reativo, é mesquinho, é egoísta. Compra porque está preso dentro de si. Passa a tarde no shopping procurando um sapato, tarde consumindo e sendo consumido. Tentando preencher o vazio da solidão.

A igreja se comercializou, o espírito fica entre a roupa nova e a nova TV. Vai para a Igreja para pedir mais dinheiro, paga o imposto para Deus. Velas para comprar. Indulgências, vagas no céu. Decalques no carro, CDs e DVDs. As religiões que se dizem contra o consumismo são as mais hipócritas: a aula de Yoga, o incenso, a calça trançada, a droga, tudo é consumo. Meditar agora é consumir.

A diversão é o consumo. Agora a diversão é na cadeira, na frente do computador, consumido mídia, adicionando fotos, colecionando "amigos", ganhando níveis, juntando itens, consultando preços.

Amanhã eu não consumo, vou sentar com meu amigo, conversar sobre conversas, sem comprar o maldito refrigerante.

28 de agosto de 2012

Corpo e Alma Linguística



"[...] Nosso corpo e alma não são dois e não são um. Se você acha que seu corpo e mente são dois isso está errado, se você acha que são um, isso também está errado."

De uma certa forma, eu concordo com esse texto. Corpo e alma não podem ser considerados como duas entidades separadas, nem são a mesma entidade. Corpo e alma não podem se separar porque um não existe sem o outro. Quando o corpo desaparece, a mente desaparece. Já a mente simplesmente não desaparece sem que o corpo não tenha desaparecido. Falando assim parece que a mente é um aspecto do corpo, isso também está errado. A mente emerge como estrutura através do comportamento do corpo. Então na verdade a mente não existe no sentido material, mas num sentido estruturalista.

No parágrafo anterior eu dei a minha visão sobre a questão da dualidade. Mesmo que ela esteja errada, qual a diferença entre o meu texto e o do mestre Suzuki Shunryu? A linguagem empregada. Esse tipo de linguagem é frequentemente utilizada em textos budistas ou textos filosóficos orientais. A princípio parece cercado de paradoxos, e é.

O budismo Zen tem como raison d'être o Satori, a iluminação. Para atingir essa iluminação, os estudantes são expostos a diversas histórias e enigmas, chamados Kooans. Essas histórias, minadas de paradoxos e linguagens obscurantista, visam mostrar ao discípulo uma outra visão sobre o mundo, algo que ainda não pode ser expressado por palavras. Como base do Zen budismo, temos a ideia de que precisamos extrapolar a linguagem para entender a Verdade. Ou seja, a premissa é que a linguagem e a lógica são ineficientes para compreender a Realidade.

Ora, é obvio que a linguagem não pode expressar toda a realidade. Os olhos não podem enxergar tudo que existe porque o mundo não foi feito para os olhos, e sim o inverso. Da mesma forma a linguagem e o raciocínio emergiram como estruturas em seres finitos, com necessidades finitas. Isso, no entanto, não significa que a linguagem não possa ser desenvolvida, os seres humanos estão melhorando a linguagem há séculos. Esse tipo de linguagem "experimental" tem o seu papel no desenvolvimento da linguagem.

Porém, outra explicação para o paradoxismo do budismo seria malícia. Envolver um texto em paradoxos tem um uso muito prático: te permite nunca estar errado. Se eu postulo que não é verdade que A ou não A, pela lógica clássica eu estaria errado. A proposição A ou não A é uma tautologia. No entanto, se a ciência de alguma maneira descobre que não A, é muito mais fácil adaptar a tua ideologia para acomodar esse novo fato do que se o teu texto dissesse com todas as letras A. Difícil mas não impossível, vide firmamento.

Usar paradoxos é mais uma maneira de ser vago, poético ou pseudo profundo. É a garantia de que qualquer besteira que tu disseres poderá ser clamada como sabedoria, somente depois que a ciência descobrir, claro. 

Então, na tua opinião, o budismo é obscuro porque é budismo ou é budismo porque é obscuro?

26 de agosto de 2012

Isso é água


As coisas mais simples, mais clichés, também são as mais fáceis de ignorar. Se tu deixares a vida te leva. E mesmo te movimentando, tu não sairás do lugar.

Adquirir consciência não é sobre alcançar as grandes verdades, mas saber de cor as coisas simples. Esse post é cliché de propósito.