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12 de agosto de 2012

O pássaro e o executivo



Em umas longínquas montanhas na Índia vivia um mestre budista em um grande templo. O acesso por qualquer meio de transporte humano era quase impossível. A única forma de chegar nesse templo era através de uma densa selva e uma dura escalada.

Luís Roberto era um jovem empresário, com seus apenas trinta e dois anos já era milionário e estava a frente de um grupo com mais de seis mil funcionários. Tão jovem e com tanto sucesso, não havia muito que Luís não conseguia por pura determinação. Porém, não era feliz.

Já tinha tido muito amores que não deram certo, já tinha tentado quase todas as religiões. Fora do campo profissional, considerava sua vida uma fracasso. Parecia sempre estar buscando alguma coisa, que não sabia o que era. Além de todo o sofrimento emocional, sua saúde já estava em risco devido a anos de negligência de sua parte. A vida corrida de um empresário não deixava tempo para dormir e se alimentar direito.

Foi então que um jovem, vestido com uma bata budista e chinelos, entregou a Luís Roberto um livro. Esse livro, de capa dura, com páginas amarelas e roídas, castigado pelo tempo e por traças, descrevia no primeiro capítulo tudo que o jovem empresário sofria: as insônias frequentes, o medo de se abrir com outras pessoas, a busca pelo espiritual. Aquele livro parecia ter sido escrito para ele.

O segunda capítulo do livro usava jargões budistas que Luís não entendia para explicar a solução de todos aqueles problemas. Luís passou noites e noites acordado tentando entender o capítulo dois. Procurou cada um dos termos na Internet atrás de alguma explicação: não encontrou nada.

Foi atrás de um especialista: foi em vários templos budistas espalhados pelo Brasil, ouviu falar muito sobre o budismo e seus princípios, mas nada sobre o capítulo segundo daquele livro misterioso, ninguém, nem mesmo os mestre budistas, entendiam aqueles termos ou os argumentos. Luís já estava quase desistindo quando sua esperança foi reascendida: um jovem discípulo de um templo em São Paulo lhe disse que aqueles termos pertenciam a uma corrente já quase esquecida do budismo, cujos últimos discípulos se encontravam em um templo de difícil acesso na Índia.

Luís então tomou uma decisão: precisava entender aquilo, com a mesma determinação que usou para chegar ao primeiro milhão, chegaria também à felicidade. Sob o risco de perder todo o sucesso material que tinha alcançado até ali, partiu no dia seguinte para as ditas montanhas: descobriria a solução para suas angústias ou morreria tentando. Encontrou, em nova Déli, dois guias que conheciam a área em torno do templo. Foi avisado por todos que muitos morreram tentando lá chegar, que o caminho era cheio de perigos. O jovem milionário não chegara tão longe para desistir.

Depois de seis dias de caminhada pela selva, finalmente chegaram ao pé da montanha, a partir dali seriam dois dias de escalada (havia um pequeno vale onde poderiam acampar mais ou menos a três quartos do caminho). A escalada foi dura, especialmente para Luís Roberto, que não era um grande esportista. No caminho para cima, os viajantes viam cordas rompidas e marcas de unhas que indicavam os fracassos passados, cada uma dessas evidências de perigo deixavam Luís ainda mais determinado.

Finalmente chegou no templo, não acreditava na beleza daquela construção intocada pelos séculos. Tinha um estilo que nunca tinha visto, mas que lembrava os templos zen japoneses. A cada três metros nas paredes havia uma figura monstruosa revestida a ouro. As paredes, sem nenhum defeito, eram pintadas com preto e dourado. O jardim era incrível, cada milímetro parecia ter sido planejado. Como tinha sido construído era um mistério: quem teria levado todo aquele ouro e tijolos? Foi recebido por dois jovens discípulos que vestiam roupas idênticas às do rapaz que lhe entregou o fatídico livro: Luís sentia a mesma excitação que sentiu ao vender a sua primeira empresa. 

Foi levado até o mestre.

Subindo uma escada que não parecia ter fim, dentro de uma pequena construção, atrás de duas estátuas aterrorizantes de leões, estava o mestre. Luís nunca tinha visto alguém tão velho, era difícil determinar a sua idade, devido a penumbra e o fato que o idoso raramente se movia. Mas sua voz entregava o castigo dos anos, disse:

- Eu sei porque tu estás aqui, todos vêm pelo mesmo motivo -- demorou cerca de trinta segundos para terminar essa frase, aparentemente já não falava há dias.

- Então -- respondeu rapidamente o jovem empresário -- me explique, mestre, o capítulo dois.

Até que o mestre respondesse, passaram-se três minutos. Esse tempo pareceu dois anos para Luís, toda aquela espera e dificuldade, que somavam-se aos anos de angústias pessoais, faziam sua mente correr a dez mil quilômetros por hora. Tudo parecia se misturar em seu cérebro, seu coração batia acelerado. Toda aquela adrenalina lhe deixava tonto. Seu coração quase parou quando o mestre começou novamente a falar:

- O homem é o único ser dessa terra que tem a capacidade de alcançar a iluminação. Mas nem todo homem nasce igual. Tu estás acostumado a ter tudo que desejas, mas não te satisfazes. O motivo é que desejas a coisa errada. Não é na riqueza e no poder, nem no amor de mulheres, nem na admiração e inveja de homens, que está a tua satisfação: ela só vai ser alcançada no momento em que descobrires o Sentido da Vida.

- O Sentido da Vida? -- respondeu, incrédulo -- então o mestre sabe o Sentido da Vida?

- Faze o seguinte: vai e encontra a ave azul de patas roxas que fala a língua dos homens, entenderás então o Sentido da Vida.

- Como assim? uma ave azul de patas roxas? o que isso tem a ver com o sentido da vida? é um papagaio? eu não entendo, por favor me explique!

O mestre não disse mas nenhuma palavra. Luís ficou doze horas tentando fazer o mestre explicar melhor o que aquilo significava. Mas o mestre permanecia imóvel, o único movimento que fazia era piscar, apenas uma vez a cada vinte minutos.


Luís saiu de lá desconsolado. Como uma pássaro iria fazê-lo descobrir o Sentido da Vida? Talvez tantos anos em um templo longínquo teriam levado aquele velho à loucura. No entanto Luís Roberto não chegou tão longe para nada, ele não era do tipo que desistia na primeira adversidade. Iria encontrar aquele pássaro ou morrer tentando.

Passou os próximos cinco anos procurando a bendita ave, andou pelos quatro cantos do mundo. Uma pista falsa levava a o outra pista falsa, que levava a um beco sem saída. Buscava cegamente, sem pensar em nada além de seu objetivo. Não perdia um só minuto e não se dava luxo de indulgências. Sua vida era só procurar, procurar, procurar. E enquanto buscava, suas empresas, sem seu comando, foram falindo, uma a uma, até que nada restou de sua fortuna, legado e fama.

Derrotado, Luís Roberto voltou ao templo. Iria implorar ao mestre pela resposta. Se não a conseguisse, se jogaria do alto da montanha, nada mais importava para ele, todos os seus bens e conquistas tinha desaparecido. Enquanto escalava a montanha, desta vez sem a ajude de guias, se sentia estranhamento calmo. Teria se resignado a seu destino? talvez os fracassados sejam livres, livres de responsabilidades, de expectativas. Ainda assim algo lhe roía por dentro: não achara o pássaro, nem o Sentido da vida.

Ao chegar ao topo do templo, não pode nem falar antes de ser interrompido pelo mestre:

- Então jovem que tem tudo que deseja, encontraste o pássaro?

- Não, usei todos os recursos e forças que tinha, mas não encontrei -- dizendo isso, Luís se ajoelhou, e continuou -- por favor mestre, preciso saber, perdi cinco anos da minha vida, só procurei, procurei e procurei. Mas não achei nada.

- Passaste anos procurando o pássaro de penas azuis e patas roxas, se tivesses o encontrado, terias descoberto o sentido da vida. Porém o pássaro não existe.

Nesse momento, Luís Roberto descobriu toda a verdade: o mestre era um pau no cu.

22 de julho de 2012

Um mundo melhor


Eu sempre tento escrever coisas interessantes, mas hoje eu só quero é desabafar: estou cansado de trocar de roupa. Sério. Todo dia é a mesma coisa, acordo de manhã boto uma calça, um casaco. Chego no trabalho, tiro o casaco. Volto para casa tiro o casaco de novo, troco a calça, tomo banho, e daí tiro toda a roupa, sério, tomar banho necessita que tiremos toda  roupa e depois coloquemos, de preferência, outra roupa. É muita roupa sendo trocada, todos os dias.

Pensa bem, temos sete bilhões de pessoas na Terra, assumindo que na média as pessoas trocam de roupa quatro vezes por dia (alguns não trocam nenhuma vez, outros trocam muito). Isso dá 28 bilhões de trocas de roupa por dia. Se convertêssemos tudo isso em energia, poderíamos iluminar toda uma cidade (pequena). A troca de roupas gerais da população pode ser a causa do derretimento das calotas polares.

Imagina um mundo sem troca de roupas, é fácil se tu tentares. Sem a troca de roupas economizaríamos com o mercado têxtil, que polui nosso rios. Mataríamos menos animais, já que alguns bichinhos são mortos somente para que extraíamos suas peles.

E o tempo? um homem geralmente perde dez minutos por dia trocando de roupa, as mulheres muito mais. Vamos assumir que a média é vinte minutos. isso são cento e quarenta bilhões de minutos por dia.   Isso são vinte cinco vidas humanas Ou seja, desperdiçamos vinte e cinco vidas humanas diariamente trocando de roupas. Essas vinte e cinco pessoas poderiam estar inventando a cura para o câncer ou combatendo o crime.

O mercado da moda acabaria. Nos EUA a média do gasto com roupas é seiscentos dólares por ano em roupas e sapatos. Isso são cento e oitenta trilhões de dólares por ano. Com esse dinheiro poderíamos mandar trezentos e sessenta missões tripuladas para Marte em um ano. Quase uma por dia. 

Resumindo, teríamos um planeta mais limpo e com mais recursos, mais tecnologia, mais tempo para nossa família e nossos filhos, mais renda, menos morte de animais inocentes. O mundo perfeito é a mundo sem troca de roupas, faça sua parte, não troques de roupas.

1 de julho de 2012

Shrek roubou nossa alma


Atualizações de status saltam na minha tela com uma notícia incrível: era do gelo 4 saiu e é imperdível. Ler essa frase faz meu sangue correr mais rápido, aumentando minha temperatura corporal. Sinto-me moralmente ofendido.
Sim, eu odeio animações 3d
"Ah, mas são tão bonitinhos e divertidos, por que esse ódio todo?". Vou te explicar, os filmes 3d estão destruindo o cinema e nossa cultura.

Minha primeira experiência com o gênero foi assistindo a um seriado em 3d chamado reboot. Eu, pobre criança inocente, me deleitava com a nova mídia. Na época, o 3d ainda engatinhava, não tínhamos a avalanche de animações que hoje invadem as férias da criançada. Eu achava surpreendente, mal sabia eu que assistia à semente do apocalipse cultural germinando em minha frente.

Na época, 3d era coisa de criança. Devido às limitações técnicas, as formas eram simples e as texturas eram claramente falsas. Tudo tinha um aspecto infantil, era um mundo de brinquedo. O formato não diferia muito das animações convencionais.

O problema todo começou com o lançamento de Shrek. Agora não tínhamos mais só crianças nos cinemas, começamos a ter alguns adultos (jovens adultos sem filhos). Os autores começaram a colocar piadas de duplo sentido, referências culturais e outros conteúdos que as crianças não entendiam. Pouca gente estava se dando conta das consequências terríveis desse comportamento absurdo.

Agora se tornou corriqueiro, cinemas lotados de adultos, casais, velhos, todos assistindo a uma abelha falante com a voz de um comediante famoso. Onde está o comediante? por que ele não aparece? por que vemos o mundo através duma mentira?

O filme de animação é um porto seguro para os jovens casais. Claro que o Ricardinho prefere levar a namorada para ver "Era do gelo 4" do que levá-la para ver o último drama espanhol. O drama pode levar a discussões indesejadas, a reflexões sobre a vida, sobre seu relacionamento. O drama pode levar à verdade. A animação não, as pessoas entram no cinema, o cérebro fica na bilheteria.

Claro que esses filmes tratam de temas da vida real, eles tem que tratar. Mas é tudo escondido atrás de máscaras, atrás de trinta centímetros de tinta e efeitos de iluminação. É muito fácil ignorar a mensagem, é tudo armado para que tu ignores a mensagem. Idealmente não há mensagem. A abelha come mel e dá uma risada, tu ris junto e a Terra gira. A namorada não briga, o namorado não pensa. Saem juntos de mãos dadas como entraram. Fugiram da realidade, eliminaram a realidade.

Como se não bastasse o efeito alienador de tais filmes, ao qual os filmes de Hollywood estão longe de estarem imunes. Esse tipo de filme está acabando com atores de verdade, com vidas de verdade. Em pouco tempo, não iremos mais querer ir ao cinema para ver pessoas de verdades, rostos como os nossos. Claro que não, quereremos ver abelhas comendo mel e roedores caindo de precipícios. Que chata essa reflexão sobre o efeito da morte de um familiar na vida de um cidadão de classe média! quero ver um urso de saia dançando balé.

O vida não refletida não vale a pena ser vivida, o homem que não reflete é facilmente manipulado. O político que rouba teu dinheiro é de verdade, com voz de humana e intenções obtusas. Não é uma abelha de gravata. Nas próximas eleições não votes no urso bailarino.

É por isso que os filmes 3d me corroem a alma. Eles estão criando uma sociedade de alienados que preferem o urso falante que o áspero calvário da reflexão.

25 de junho de 2012

Excesso de informação


Cansei de escrever rebuscado. Escritor que é escritor escreve simple. Sem "esses" nos finais das palavras, ignora a ortografia, a cria. Reinventa a gramática. Escritor toma banho na sanga. Bebe no gargalo e deita direto na areia. 

Mas eu não sou escritor, minha infância foi feliz. Ainda não contrai a tuberculose. Então por que diabos tenho um blog? por que escrevo se não sou escritor? para descobrir a Verdade? O que é a Verdade? qual a cor da verdade? verde? 

Ninguém lê mais, os livros estão em formato binário. As conversas entre amigos estão codificados em utf8. Arte em jpeg. Na tela do cinema um modelo 3d projetado num frame 2d que simula uma visão 3d.

É tudo uma casca, casca de mentiras (não uma casca de mentira, apesar de que não é uma casca de verdade) que esconde nossos sentimentos. A beleza da flor coberta pela sombra da nuvem negra da ilusão.
 
A modernidade entra nos olhos da menina de oito anos. Que clica, preenche formulários, esquece que é animal, que descende do rato que usa para clicar na imagem morta.

Mas quão diferentes somos do rei coroado? das pirâmides vazias e inacabadas? O mundo do homem é símbolo e sempre foi. Nada mudou, os saudosistas se enganam tudo é código, até a violência, a dor, é símbolo. O retorno à natureza é impossível por que lá nunca estivemos. 

É por isso que escrevo, porque violência é símbolo.

7 de maio de 2012

A sociedade das sociedades mortas


Larguei o livro na cama e disse:
- É lua cheia; começa hoje, acho, hoje ou amanhã.
- É?
- É... isso é uma ótima maneira de começar um conto.
E comecei a escrever este conto. Que não é um conto.

O ser humano é formado de orgãos, que são formados de tecidos, células. As células agem de maneira claramente determinada. Agindo cada uma da sua maneira, formam um sistema muito mais completo que elas, nós. Nós não somos claramente determinados. É esperado que seres humanos (ou qualquer outro seres racionais) não tenham capacidade para perceber seu determinismo.

O ser humano se distingue dos outros seres vivos conhecidos porque tem consciência de si mesmo e de sua morte. A morte é a perda do equilíbrio, não representando o fim dos subsistemas, mas a sua transformação em outras coisas.

Não há, no entanto, um consenso do que é um ser vivo. Definamo-o. Um ser vivo é um sistema de sistemas em equilíbrio (de uma forma recursiva) que possui as seguintes características:
  • Nasce
  • Tem a capacidade de se reproduzir
  • Morre
Seres humanos formam sociedades. Uma sociedade claramente nasce (já que elas não existiram desde o início dos tempos), se reproduz (assexuadamente e por brotamento) e morre (é exterminada ou se transforma em outra coisa totalmente diversa da original).

Quando um animal morre, ele está entrando em desequilíbrio. Um animal pode viver sem uma de suas partes (digamos uma perna). Porém, ao perder alguma parte vital de seu corpo (desequilíbrio de um sistema vital), o sistema entra todo em desequilíbrio.

Sociedades e seres humanos agem conforme regras complexas, que podem ser até certo ponto entendidas e usadas para prever futuras ações. Assim podemos tentar entender a sociedade como um ser vivo. Porém, assim como as formigas não entendem o mundo dos humanos (ou podem se comunicar conosco), os humanos não entendem o mundo das sociedades.

Talvez algum dia, senão já hoje, as sociedades tomem consciência de si próprias e de sua morte. Teríamos sociedades se comunicando e mutando, até o ponto de adotar algum tipo de reprodução sexuada. Imagina o sexo das sociedades.

Será que isso é possível? e será que há algum modo de testar essa hipótese? talvez se conseguíssemos nos comunicar com as sociedades, poderíamos fazê-las evoluírem positivamente.

13 de abril de 2012

O monge que roubou minha carteira

1. O Mundo
Criei uma analogia para explicar minha visão de mundo: o mundo é como um grande código de barras e nós, leitores de código. Quando passamos o olho, vemos os numerosinhos relativos ao código. Talvez o código de barras seja multicolorido, ou cheio de curvas. Mas nós fomos desenhados para ler somente os tais dos numerosinhos. Ou seja, somos limitados. Não existe nenhum motivo para não o sermos. Mas o código está lá. Não necessariamente físico, ou digital. Mas lógico. Resumindo, sou cético.

2. O Ateu
Amo o amor orgânico.
Choro a morte definitiva,
velo a alma inexistente.

Amo, choro e velo mais que tu.
E rio.

3. Paulo Coelho
Essa manhã, indo para o trabalho, vi um mendigo que ria com poucos dentes. Sentei ao seu lado e perguntei-lhe o que era felicidade. Ele me disse que felicidade era ter um grande bauru para jantar. Andei alguns metros e vi um empresário, perguntei-lhe o que era felicidade. Ele me disse que felicidade era autonomia, realização e propósito no ambiente de trabalho. Andei mais alguns metros e encontrei um atleta, felicidade, me disse, era vencer obstáculos, ultrapassar limites, atingir a perfeição do físico e do mental. Andando mais um pouco encontrei um monge, ele me disse que a felicidade não existia, que a vida era formada de sofrimento, e que a felicidade, como era vista no ocidente, era só mais uma transfiguração da dor. Que o que se deveria procurar na vida era libertação de toda forma de apego. Andei mais alguns metros e vi uma mãe que encostava a ponta de seu nariz na de seu filho. Ambos riam, e eu fiquei feliz.

24 de março de 2012

Erro é descoberta*


Escrever não é fácil; não é.

A tela branca é um buraco negro. Escreve melhor no ônibus, olhando para a janela, ou no chuveiro. Uma novela deitada na cama. Uma epopeia, esperando o fim da aula. Na mente tudo é mais claro, tudo flui. Ideias encadeiam-se harmoniosamente como um cardume de atum. Caótico, à primeira vista, mas a sua fluidez dá ares de dança ao espetáculo. Mas são só ares, ao aproximar-te, verás que não passam de um monte de peixes. Na mente a ideia é uma mentira.

Sentar-te e por a mão no teclado, ou na pena, é matar o texto. É matar o que sentimos. Porém, deixa a ideia morrer, para renascer como oração. Esqueça o orgulho. A ideia na tua mente, ainda que cheia de graça e bem vestida, não vale nada. Vale mesmo é compartilhada. E compartilhando-a ficas mais rico. Quem escreve é uma pessoa rica -- até os poetas. Cada cem palavras na tua mente, são uma no papel. A cada cem mensagens que escreves, uma vai chegar ao leitor. Mesmo assim, tu és mais rico por escrever, e quem lê é mais rico por ler.

Faze da escrita um hábito. Anda sempre com teu caderninho. Só se aprende a escrever escrevendo. Não te desesperas com a folha em branco. No lugar da folha, olha o céu. Escreve teu poema no ônibus, tua epopeia na cama, tua novela no chuveiro. Suja a folha, molha-a, amassa-a, porque em branco ela não vale nada. Escreve com letra feia, ou tremida do meneio do carro. Mas escreve, sempre. O perfeccionista é o pior escritor, porque nem escritor é.

Quando não souberes sobre o que escrever, faze como eu: escreve sobre a escrita. Pelo menos eu vou querer ler.

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